Não fuja da luta, covarde

Não fuja da luta, covarde
Empate

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Proposta de Minicurso na ABRAPSO:Violência, ideologia e mídia no contemporâneo

A violência e suas distintas formas de mal-estar é uma das grandes expressões significantes do contemporâneo. A palavra violência em suas concepções linguageiras é inaugurada do prefixo ambivalente “vis”, em latim “impulso vital”, virilidade, intensidade. Na entrada anfiteatro Flaviano, chamado séculos depois de “Coliseu” estavam fixadas placas que diziam “violentia” referindo-se ao entretenimento preferido do Império: o espetaculo sangrento de cristãos, judeus ou condenados se degladiarem até a morte ou serem estripados for leões famintos. A violência, pois, desde um passado milenar está inscrita em um simbólico sangrento e paradoxal, constituinte da cultura humana. Entre a sociedadade patriarcal dos romanos, o incesto, o estupro e o cárcere privado de mulheres eram constituintes “socialmente aceitos” e legitimados na estrutura social.

Slavoj Zizek em um documentário chamado “A realidade do virtual”i chama atenção para a relação entre a teoria da Relatividade de Einstein e a revisão da teoria do trauma de Freud. Einstein imaginava inicialmente que o espaço era plano e que a matéria provocaria uma curvatura geradora da própria gravidade. Posteriormente, o físico alemão percebeu que não era a matéria que curvava o espaço, ele já era curvo.No emblemático caso Caso do Homem dos Lobos Freud percebeu que o menino havia presenciado a cena do coitus a tergo, porém ela tornou-se traumática anos depois, ou seja, não é o trauma que provoca um rompimento no psiquismo e sim vem a condensar e deslocar afetos primordiais já existentes.

A violência em nossa cultura não é um trauma que irrompe com uma susposta ordem pacífica, e sim a paz é uma ilusão sintomática que sustenta um real aterrorizante gerador de mal-estar. Após vivenciar os horrores da primeira guerra mundial, e em pleno interstício entre-guerras no qual se respirava a ascenção do nazi-fascismo e o recrudescimento do anti-semitisno Freud parte da metapsicologia para dedicar-se pensar as interfaces e dobras entre o inconsciente e a sociedade, culminando na obra “Mal- estar na cultura” em alemão “Das unbehagen in der kultur”. Uma de suas primeiras traduções para o inglês ganhou o título de “Civilizations em their discontents”, gerando uma polissemia de termos entre “desconforto”, “mal-estar”, “desamparo”, “cultura”, “civilização”. A obra da seqüencia a “Além do princípio do prazer”, “Psicologia das massas e a análise do eu”, “Totem e tabu” e “O futuro de uma ilusão”, e o que podemos extrair de tais obras é que o Humano guarda resquícios de suas origens primitivas (primatas) e que o papel imaginado da Ciência, da Culura e da Religião como civilizadores ou subimadores dos impulsos agressivos e destruidores não só fracassa parcialmente como produz, paradoxalmente, mais violência e destruição. Os seres humanos experimentam impulsos tanáticos e eróticos , amor e ódio entrelaçam-se em sadismo e masoquismo, e os desejos de dominação submisssão produzem uma sociedade pós- traumática que, na busca pelo prazer só encontra a infelicidade.
As intuições visionárias de Freud de“Totem e tabu” e do “Mal Estar na Cultura” encontraram ressonâncias e desdobramentos nos trabalhos mais recentes de observação de comportamentos gregários e violentos nas outras quatro espécies de grandes primatas (chimpanzés, orangotangos, gorilas e bonobos) e nas chamadas sociedades primitivas sobreviventes ao extermínio. Os estudos de Franz de Waaal e Richard Wranghan e Dale Peterson lançaram uma luz sobre os terríveis comportamentos homicidas infanticidas e estupradores das comunidades de Chimpanzés do Zaire (que outrora eram considerados seres pacíficos) gerados pela dominação masculina e o cio que é quando a fêmea entra em período fértil os machos são inexoravelmente atraídos por seus odores e entram em disputas físicas para quem a estupra e transfere seu material genético em primeiro lugar.As observações destes cientistas dos Chimpanzés levaram a elaboração da teoria do “Macho demoníaco” e foram comparados com estudos em comunidades humanas primitivas que concluíram que não há cultura sem estupro, infanticído e homicídio.Contudo, as pesquisas também levaram a descoberta do “primata cordial” quase gêmeo genético dos chimpanzés chamado de macaco bonobo. Os bonobos eliminaram o cio de sua cadeia evolutiva, juntamente com a dominância masculina, o estupro, o homicidio e o assassinato de filhotes, constituindo comunidades sexualmente liberais, feministas e de amor livre.
Não é difícil imaginar que os estudos em primatologia colocaram o Homo Sapiens em um ponto médio entre o chimpanzé e o bonobo. Somos criaturas extremamente violentas, porém não possúimos o cio, guardamos resquícios de ambas as espécies o que poderia ser escrito nas duas faces de uma fita de Moebius1:as fêmeas humanas, liberadas do cio, poderiam ser todas sexualmente liberadas, bem como os machos não se sentiriam impelidos a violenta-las, porém, o que acontece é o Mal-Estar: o estupro e o machismo são elevados a um nível de requinte e perversidade no Homo Sapiens jamais imaginad--o pela inteligência prática e imediata de nossos ancestrais; Cultura gera selvageria.
É o caso exemplar e paradoxal do Austríaco Josef Fritzl

Nascido na Áustria, Josef Fritzl era visto pelos vizinhos e pela esposa como um trabalhador, pai zeloso e exemplar, quie após o desgostoo com o fato sua filha Elizabeth ter fugido de casa e se juntado a uma seita, Fritzl, com a aceitação do Serviço Social austríaco adotara três filhos que foram colocados na porta de sua casa. Em 2008 a verdade veio à tona: Elizabeth tentara fugir de casa após o pai tentar abusá-la recorrentemente, e Fritzl a trancou no porão de casa e a manteve presa no escuro por 24 anos estuprando-a recorrentemente e gerando 7 filhos, um dos quais morreu no parto três foram aqueles adotados oficialmente e criados por ele e a esposa e outros três ficaram com Elizabeth no cativeiro.
Em nosso imaginário popular é muito recorrente a fantasia de que o estupro é um crime fortuito protagonizado por um agressor desconhecido a uma vítima aleatória e que experimenta a ideia original de trauma: uma pessoa normal que sofrea a agressão bárbara de um desconhecido ameaçador e experimenta os sintomas adequados ao trauma. Relatos policiais e de trabalhadores da saúde que lidam diretamente com a violência sexual mostram o oposto: o abuso sexual é um crime recorrente em ambiente privadoe que os agressores, em sua grande maioria são conhecidos ou parentes das vítimas: avôs, tios, vizinhos, amigos da família, pais ou padrastos que obtém o concentimento das vítimas por sedução material, ameaças, intimidação, barganha. Na metáfora usada por Zizek, o espaço social e subjetivo de uma vítima de estupro já é traumático e o ato em si é mais consequencia do que causa.
Josef Fritzel é um caso exemplar e radical:
“O caso de Fritzl valida o trocadilho de Lacan entre perversão e père-versão, uma versão do pai. Não é fundamental notar que o apartamento subterrâneo materializa uma fantasia ideológico-libidinal muito precisa, uma versão extrema do prazer-dominação-pai? Um dos lemas de Maio de 1968 era “todo poder à imaginação”; nesse sentido, Fritzl também é um filho de 1968 que realizou impiedosamente sua fantasia. Por isso, é enganoso, e impiedosamente errado, chamar Fritzl de “inumano”; no mínimo, para usar o o título de Nietzsche, ele poderia ser chamado de humano, demasiado humano.” Não admira que Fritzl se queixasse de que sua vida foi arruinada pela descoberta de sua família secreta. O que torna seu reinado tão medonho é justamente que seu exercício de poder e seu usufruit da filha não eram apenas um ato frio de exploração , mas eram acompanhados de uma justificativa ideológico-familiar (ele fez o que todo pai deveria fazer, proteger os filhos das drogas e de outros perigos do mundo) além de demonstrações ocasionais de compaixão (ele levou a filha doente ao hospital, por exemplo). Esses atos não foram brechas de humanidade calorosa em uma armadura de frieza e crueldade, mas partes da mesma atitude protetora que o levou a prender e violentar seus filhos. (ZIZEK, 2014, p.58)

Em 2014 cineasta austríaco Ulrich Seidl, inspirado em Fritzl e em outro sequestrador hediondo compatriota chamado Wolfgang Prikopil, que em 1998 sequestrou Natascha Kampush e a manteve em cativeiro sob estupros recorrentes por 8 anos, produziu documentário “Do porão”cuja proposta é desvelar os as pequenas perversões s nos porões das famílias austríacas de classe-média: nazismo, sado-masoquismo, misoginia, culto as armas, sodomia.
Seidl trabalha com uma metodologia não dicotômica entre documentário e ficção, os personagens e suas peculiaridades são reais mas as performances cênicas são, segundo ele, “ficcionalizadas”, poderíamos colocar aqui realidade e ficção nos lados de uma fita de moebius. Três histórias contadas no filme chamam a atenção.
1-um casal sado-masoquista em que a mulher é extremamente amorosa, rigida e dominadora de um marido gigante porém dócil e submisso. Ela o obriga a andar nu pela casa com pesos nos testiculos e a limpar o banheiro com a língua.Quando o amor e a dominação são muito fortes, eles entram no porão onde estão todos os instrumentos de tortura e prazer, onde Seidl filma uma sessão em que o marido é suspenso no ar pelo pênis.
2- Um senhor de idade reune sua bandinha germanica para comer, beber, tocar e jogar conversa fora em um porão repleto de relíquias nazistas e com um imenso quadro de Hitler na parede.
3- Uma mulher nua e amarrada por várias cordas de “boundagismo” conta a história de seu casamento e de como o marido alcoolista a espancava até o ponto de ela um dia enfiar uma faca nas suas costas e fugir com a filha tornar-se adepta do sadomasoquismo. Seu primeior dominador a fez experimentar todas as formas de dor e prazer até que um dia exagerou e a obrigou a ir para o hospital toda ensanguentada. Hoje ela pratica com um novo mestre chamado Walter e trabalha para a Caritas ajudando as mulheres vitimas de violência.Seidl mostra uma sessão de dominação na qual o mestre Walter bate no traseiro dela com um chicote, e logo em seguida dá continuidade ao depoimento no qual ela diz que não gosta de homens machistas porém para ela os homens precisam ser fortes e dominadores. 
Neste caso podemos colocar o caso desta mulher e sua relação da violência e dor nos lados de uma fita de papel quando ela era espancada pelo marido, proceder a dobra de moebius quando ela descobre o sadomasoquismo e cortar a fita duas vezes ao meio, provocando primeiro uma torção e seguindo a produção de dois anéis entrelaçados.
A violência aqui mais uma vez não constitui em um evento traumático na vida de uma vítima, e sim um espaço curvado e caótico no qual o sujeito escava seu desejo e produz dobramentos e metamorfoses. O mal-estar aqui não está na violência física em si porque esta é reelaborada e ressignificada, encaixando-se em um sinthoma (diferente de um sintomal queixoso). Nos dois casos anteriores o impacto visual de um homem limpar um banheiro com a língua ou ser suspenso no ar pelo seu pênis é muito mais forte do que o quadro de Hitler como pano de fundo para o banquete de simpáticos cidadãos austríacos.
Aqui, além da ideia de um sujeito pós-traumático vemos evidenciadas as sínteses de Zizek sobre os tipos de manifestação da violência: estrutural, subjetiva e simbólica.
No caso da bandinha neonazista temos uma estrutura social de antisemitismo e culto ao Holocausto obscurecidas pela simpatia e a diversão, enquanto no casal sadomasoquista violência provoca no especctador muito mais impacto estético e moral. No caso da mulher amarrada a trajetória do sujeito é complexificada por uma violência física que dobra e desdobra seus sentidos: ser espancada e dominada sem consentimento e com um atravessamento machista, ser espancada e dominada com uma dose excessiva de libido e ser dominada espancada com consentimento e regras bem estabelecidas e uma dialética entre dominador e dominado.
A cultura é geradora de mal-estar e paradoxos entre a busca pelo prazer, a felicidade e a dor em um mundo caótico de sujeitos desejantes.Nosso minucurso pretende fomentar o debate e mostrar a produção do LEXPARTE (Laboratório de Extensão e Pesquisa em Psicanálise e Arte) da FURG

terça-feira, 18 de abril de 2017

13 Reasons Why HANNAH não existe


Hannah, um nome palindrômico, ou seja, tanto faz se o lemos da direita para esquerda ou da esquerda para direita, tanto faz  o que é causa ou efeito, ela  apenas nos pede para escutar,   e deixa 07 fitas K7 com 13 lados gravados e enfatiza  que não usa MP3, Youtube, ou qualquer outra ferramenta tecnológica porque  Hannah está morta, não pode mais falar, como todos nós quando  deitamos no divã e nos despimos de nosso corpo  que simplesmente vive o mundo e o matamos para falar sobre... sobre as precariedades deste mínimo eu que circula fora do tempo do Titã Cronos, aquele que limita a todos nós. Para que a fala seja plena o sujeito cai, o espaço cai Hannah não está mais aqui) , a vida cai. O sujeito-objeto cai. O tempo cai.

Tempo de diagnosticar Hannah como deprimida, suicida, psicótica, surtada, perversa, vingativa e de culpá-la de todos os males da humanidade, afinal ela não existe... Ninguém se perguntou porque tudo acontece com ela, assim como a Grace  de "Dogville" todas as formas de abuso e todos os males da humanidade caíram sobre Hannah Baker em 13 fitas, 12 apóstolos e um Cristo. E seu amigo mais fiel a negou por três vezes...

Modernidade, pós modernidade e a subjetividade em rede

Somos modernos, contemporâneos ou pós-modernos? A expressão “moderno”, circunscrita ao terreno das artes, confunde-se com a Semana de Arte Moderna, e invoca personagens como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Anita Malfatti, e etc. Todos estudamos a semana de 1922 como um marco do modernismo no Brasil, e tal corrente artística e literária, inspirada pelo clima europeu da época, propunha-se a romper com padrões formais da arte, da literatura, da poesia.
E, talvez, seja este zeitgeist modernista que tenha construído a rede de significados que permeia o uso corriqueiro da palavra “moderno”, que significa o novo, o contemporâneo, que se confunde com o conceito estatístico de “moda”, que é a repetição de um mesmo fato, roupa ou tendência. Uma pessoa moderna costuma trajar-se de acordo com as tendências de seu tempo de seu contexto, de sua cidade, e ela deixa de sê-lo no momento em que não acompanha esse ritmo de intensas mudanças. Aquilo que é moderno não necessariamente está preso no tempo e no espaço, porque a moda pode ser “retrô”, a moda pode ser vestir-se com acessórios “das nossas avós” adquiridos em briques e brechós. Desta maneira, o suco corriqueiro da expressão “ser moderno” confunde com ser contemporâneo, ou “estar alinhado”.
Nas ciências sociais e na filosofia, a idéia de modernidade apresenta-se de uma forma mais restrita a um período no tempo e no espaço e a um determinado modus operandi daquilo que chamamos de “sociedade moderna”, ou como diz um grande pensador da modernidade, o sociólogo inglês Anthony Giddens:
“O que é modernidade? Como uma primeira aproximação, digamos simplesmente o seguinte :modernidade refere-se a estilo, costume de vida e ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência” (Giddens 1991)

Giddens observa a modernidade como um e conjunto de relações econômicas e sociais que surgiram com o iluminismo, a democracia e o fortalecimento do estados nacionais, que teriam proporcionado aquilo que Boaventura Sousa Santos (2000) considera o casamento do Estado nacional capitalista e da ciência moderna. Este casamento foi bastante acelerado pela Revolução Industrial e científica, em especial nos séculos XVII e XIX. Giddens situa a modernidade como o advento de uma sociedade pós-tradicional, pela transformação nas relações sociais, nos laços comunitários e de parentesco, no esquadrinhamento do tempo e do espaço. O tempo é o tempo da evolução científica e tecnológica, o espaço é o espaço das cidades. As instituições modernas, ou disciplinares, como diz Foucault, vão predominar nos modos de existência. O Homem Moderno mede seu tempo pelas horas de trabalho e de lazer, a criança moderna passa a maior parte do seu tempo na escola, os doentes modernos submetem-se aos médicos e hospitais.
A própria sociologia é uma ciência moderna, pro ser fundamental estudarmos os mecanismos aos quais nossas relações de tempo, espaço, trabalho e subjetividade estão submetidas. Para um grande sistema moderno, é necessário construirr um agrande teoria que o explique, como as leis da gravitação de Newton impulsionaram a revolução industrial tecnológica, as grandes teorias de Marx, Weber, Durkheim e Parsons impulisionaram a revolução industrial das ciências humanas.
É o Estado moderno que organiza, que faz o tempo correr que cura as doenças e aplaca os conflitos. No entanto, as grandes guerras do século XX e a produção em massa de pobreza anos paises do terceiro mundo ao longo do século XX e dos países Europeus dos anos 1990 até hoje colocaram a modernidade em cheque. O Estado, visto como fator inclusivo e porto seguro da subjetividade, começou a mostrar-se violento e ambivalente. Zigmunt Bauman chega a colocar a modernidade como um monstro ambivalente, considerando Adolph Hitler como uma espécie de grande atrator moderno: seus ideais de pureza racional e ordem seriam a exacerbação dos ideais da modernidade. A inclusão, a igualdade, o desenvolvimento movidos por uma “Sociedade” que se sobrepõe e se antagoniza aos “indivíduos”. Os loucos precisam ser curados no manicômio, é preciso, os alunos precisam ser disciplinados na escola. A diferença é vista como anomalia. Os turbulentos anos 60, década de efervescência e questionamento das prisões espaço-temporais-tecnológicas, pelo surgimento de pensadores críticos e absolutamente transdisciplinares, como Feliz Guattari, Gilles Deleuze, Michel Foucault. A subjetividade desejante, para estes atores, é um conflito de forças com o que poderíamos chamar de “social”, o sujeito resiste ao poder instituído, ele demanda mais do que boas relações e organização social. Em tempos de crise identitária e técnica, na inversão da lógica “social-individual” na relativização das dicotomias, autores como David Harvey e François Lyotard, entre outros, chegam a discutir a possibilidade de uma pós-modernidade: o fim do estado e da sociedade, e conseqüentemente, da possibilidade de compreendê-los em um sistema teórico compreensível.
Dentro da sociologia, por questões corporativas (sem sociedade não é possível fazer sociologia), há grande resistência ao termo “pós”. Afinal, o Estado moderno realmente não acabou, a existência moderna tampouco deixou nosso horizonte subjetivo, a democracia, especialmente em tempos de eleições, não deixa de clamar pelo Estado responsável por saúde, educação, segurança e emprego. Nos países do terceiro mundo, o Estado Moderno é muito forte, porém de curto alcance, e às vezes apenas sua parte mais violenta é sentida especialmente pelas populações mais pobres, pois são os pobres quem apanham da polícia do estado moderno, quem freqüentam suas precárias instalações escolares e de saúde e habitam as favelas, que são os restolhos das políticas de habitação modernas. Como um cadeado de ferro em uma choupana infestada de cupins, a modernidade espreme os sujeitos, excluídos em um sistema de exclusão.
Tais contradições e efeitos funestos e contraditórios levaram alguns sociólogos a pensar, com Giddens que vivemos “as conseqüências da modernidade”, ou que esta modernidade me tempos de globalização é uma “modernidade tardia” e que o descentramento do papel do Estado e a emergência das redes sociais, ou mesmo da subjetividade não mais como efeito da socialização, e sim a sociedade como efeito da subjetivação sejam características de uma modernidade “líquida”, em oposição à velha modernidade “sólida”.

Bruno Latour, nos anos 1970,  produziu uma obra revolucionária e polêmica chamada "Vida de Laboratório" que deu início a mais elaborada aventura em um dos cânones sagrados da chamada modernidade: a ciência. Latour inaugura uma nova modalidade metodológica que consiste na observação etnográfica metódica dos laboratórios, o que implica em analisar não somente os métodos, a produção científica e a "epistheme", mas também as práticas científicas como redes simétricas entre atores: aparelhos, cientistas, financiamento, publicações, imprensa, economia. Tais redes não são parte de uma sociedade pré dada, e sim estados emergentes e que demandam estabilidades e instabilidades para se manter como "fatos científicos". O total desnudamento das práticas científicas levou Latour a produzir seu famoso ensaio de título bombástico "Jamais fomos modernos" considerando como "modernos" pessoas que deliram e alucinam com a possiblidade de existir uma ciência "fria" "impessoal" "infalível" e "majestática". Latour, ao ingressar  radicalmente no laboratório e mergulhar nos rituais e nas práticas cotidianas, tornou-se um crítico ferrenho da ciência, porém sem negar sua materialidade como fazem alguns desconstrucionistas. A  ciência moderna é apenas humana, demasiado humana.
Nós, os contemporâneos, modernos, pós- modernos, recentes, tardios, líquidos, sólidos vivemos este impasse, e creio que Bauman acerta quando diz que a modernidade é ambivalente: sonhamos com a individualidade mas entramos de cabeça na coletividade midiática ou dos padrões de consumo, sonhamos com um futuro de paz e igualdade, mas somos todos radicalmente diferentes e a todo tempo entramos em conflito.
A minha posição enquanto pesquisador  e professor universitário  também é ambivalente, penso que a subjetividade contemporânea, de quem vive em uma cidade e está acoplado a redes e padrões de trabalho, consumo de cultura, alimentação e saúde, é uma subjetividade constituída por uma rede, e está em rede. Somos a interface entre o coletivo e o individual, entre a clausura e a abertura. Na rede em diferentes níveis de consciência, somos individuais e coletivos, somos atores e platéia, sólidos, líquidos e gasosos. A modernidade parece ser o software que estrutura nossa experiência de urbanitas, e a pós-modernidade, o princípio da conexão e da atualização.Tendo a concordar com Latour: jamais fomos modernos... ou não...
Algumas dicas de leitura para quem não quiser passar vergonha em algum encontro de intelectuais pós-modernos ou modernos tardios.

BAUMANZygmunt. Modernidade e Ambivalência. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1999

BAUMANZygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2001

BAUMAN, Zygmunt. Comunidade. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005

BAUMANZygmunt. Vidas Disperdiçadas. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005

 

 

DELEUZEGilles, GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia vol 01. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995

DELEUZEGilles, GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia vol 03 . Rio de Janeiro: Editora 34, 1998

  FOUCAULTMichel, Vigiar e Punir: a história da violência nas prisõesPetrópolis: Editora Vozes, 2000.
GARLAND, David, La cultura Del control: crímen y orden social en la sociedad contemporánea. Barcelona, Gedisa, 2005.
GIDDENS, Anthony, A terceira via: reflexões sobre o impasse político atual da social-democracia. Rio de Janeiro, Record, 2001
GIDDENS, Anthony. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro, Record, 2000
GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo, Ed. da UNESP, 1991
GIDDENS, Anthony, BECK, Urlich e LASH, Scott, Modernização Reflexiva, São Paulo, Ed. da UNESP, 1997.

HOBSBAWM, Eric.  A Era dos Extremos. Rio de Janeiro, R. J.  Paz e Terra, 1994

lATOUR, Bruno, Jamais fomos modernos: ensaio sobre antropologia simétrica. Rio de Haneiro, Ed 34, 1994





segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A Universidade, a Escola e a Ideologia na Educação

Sexta-feira pela manhã o Campus da FURG de São Lourenço do Sul promoverá um debate sobre Escola Sem Partido.
Eu tenho algumas contribuições para o debate após 22 anos de Universidade Pública como aluno, militante pesquisador e educador. 
Antes de mais nada é preciso dizer que são raras as instituições educativas de ensino superior conhecidas por mim que se propuseram a bancar o debate a respeito das práticas docentes e suas propostas pedagógicas, o a democratizar a horizontalizar as relações entre professor e aluno, a democracia, a participação e uma ideia mais complexa de gerenciamento.
As Universidades em geral reproduzem as metodologias das Escolas ditas tradicionais em termos de ensino e das fábricas e empresas em termos de gestão: avaliações bimestrais, chamadas, tarefas, relações hierarquizadas entre professor e aluno, burocratização, trabalho alienado e pouco espaço de debates acadêmicos.
Pensado utopicamente como uma proposta de abertura e integração da Universidade com a comunidade, o tripé ensino-pequisa-extensão coloca docentes e discentes em uma grande e interminável gincana produtivista. Atividades que não fazem parte do currículo e não se convertem em projetos inscritos em sistemas não existem, e o trabalho de sala de aula torna-se invisível e penoso para alguns.
É daí que surgem minhas críticas, pois sou professor de Psicologia da Educação e carrego em meu trabalho um forte viés filosófico e pedagógico de matriz libertária e crítica, com Deleuze, Foucault, Piaget, Jaques Ranciere e Paulo Freire. Minha luta é sempre bater de frente com a assimilação universitária do que Freire chama de ensino bancário não apenas no campo teórico, e sim na prática. Eu não sei como são outras áreas do saber, mas no meu caso é impossível trabalhar nesse viés sem experimentá-lo, sem provocar estremecimento e forçar o pensamento crítico.
Aprendi com o filósofo Slavoj Zizek que a ideologia não é algo que é ensinado ou discursado. A ideologia é algo que está enraizado na prática cotidiana, nos modos de existência, na própria estrutura da realidade vivida. Aquilo que entendemos como doutrinação ou "ideologia" no senso comum ou aquilo que o Escola sem Partido tenta combater é o que chamamos de "crítica a ideologia", algo muito pouco exercido pela maioria dos educadores, em especial na Universidade.
O mais pernóstico do Escola sem Partido é justamente não saber o que se passa na realidade Escolar e Universitária, onde Paulo Freire, pedagogo tão odiado por seus idealizadores, é apenas um nome que surge no máximo utopicamente. A verdadeira ideologia da Educação Brasileira é, e sempre foi, o sonho da direita contemporânea: muito trabalho vazio, produtivismo e pouca reflexão crítica.
Não é a toa que chegamos a um ponto que boa parcela da população brasileira acredita em tudo que vê na TV ou no facebook como se fosse verdade, apoia o fascismo, é contras os trabalhadores e somos campeões em acidentes de trânsito, corrupção e homicídios.

sábado, 21 de maio de 2016

"A onda:" , o desejo e a tragédia de ser professor e o totalitarismo recalcado na democracia


"A Onda" é um filme alemão produzido em 2008 e é inspirado na experiência de um professor de história Americano de Palo Alto que, através de exercícios e dinâmicas, consegue induzir em seus alunos comportamentos típicos da Autocracia nazista.

Heiner Wenrger é um professor que usa jaqueta de couro e camiseta de banda, morou em ocupações e é um ativista político anarquista, Aqui já começamos a pensar no paradoxo de ser professor e anarquista e nos deparamos com aquilo que Freud postula da impossibilidade de educar, governar e  curar.  Ser professor e anarquista  é um ofício cuja utopia mantém uma distancia segura do objeto do desejo e o mantém como verbo intransitivo. Wenger, na experiência da Onda depara-se com o encontro paradoxal com a utopia e a morte do desejo. A experiência educativa da autocracia torna-se insuportavelmente plena e bem-sucedida, provocando nele um gozo insustentável que o conduz a um destino trágico como Édipo, que procura a si mesmo e se defronta no fim da história com o horror do encontro..No caso específico da educação, tal prática pressupõe um encaixe perfeito entre o desejo do  emissor e do receptor. O desejo, para Lacan, denota falta da falta, desejar é um verbo intransitivo, o desejo é sempre de desejar. , diferente da ordem possível do querer. Heiner Wenger quer ser professor de anarquia, mas uma interdição a partir de um colega mais velho e que encarna o "pai professor" o condena a ensinar sobre autocracia, ou seja o oposto sintomático da Alemanha. Quando não consegue o que quer, Wenger acaba se encontrando com aquilo que deseja: o amor, a obediência e a eficácia. Os alunos aderem ao projeto da "Onda" com uma paixão jamais vista na Escola. O professor obtém aquilo que parece impossível: a plena experiência do encontro educativo.  O encontro com o objeto de desejo é insuportável pois representa a morte, ou a tragédia inexorável como é conduzido o fim do filme.


Na versão americana de 1981, mais simples, concisa e menos carregada de detalhes e emoções, o professor é mais "careta" e a experiência da Onda é menos radical, mais racional e é encerrada didaticamente (o personagem "nerd" sofre mas se conforma  e é consolado pelo professor, como bom neurótico, ao contrário do personagem alemão que aceita a experiência como a sua própria vida)

o jovem aceita a ideia da onda plenamente como este Outro maior do que eu e o professor, e não a arma, dispara o tiro mortífero ao invadir o sonho alheio e dizer que com a morte do líder a onda morreria.
Em uma leitura sintomática, já elaborada nas muitas interpretações da experiência de Palo Alto e das duas películas que lhe fazem referência, "A onda" é vista como  um alerta para os perigos da emergência do fascismo nas democracias contemporâneas, e parece se encaixar perfeitamente no momento da esfera política brasileira. Contudo isso é uma visão apenas parcial. É claro que, parafraseando Slavoj Zizek nas sua obras " Guia do perverso sobre ideologia" e "Alguém disse totalitarismo?" os elementos ideológicos  do fascismo aparecem, recalcados e pulverizados nas democracias liberais capitalistas, e isso é evidente no Brasil: a eterna guerra contra um inimigo comum (comunismo, terrorismo, petismo, islamismo, criminalidade), inflação, desemprego e movimentos nacionalistas (protestar usando as cores do país é uma antiga prática integralista. No entanto, os elementos protofascistas  não representam uma ameaça a democracia, e isso centraliza o debate atual sobre a deposição da presidente Dilma. O impeachment é ou não é constitucional, é ou não é um golpe, é ou não é democrático.
É claro que é democrático! Mas, como disse uma vez José Saramago em aula magna na UFRGS, se existe algo que não se discute é a democracia, ou seja ela é entendida como clausula pétrea, intocável, absoluta e parece ser a panacéia de todos os problemas do mundo contemporâneo. Outro pensador português, Boaventura de Souza Santos diz que o casamento do Estado Moderno, da Democracia e do capitalismo provocaram uma espécie de privatização da esfera pública, evidenciada pela predominância da propaganda política, dos financiamentos de campanha e da concentração da ação política na esfera partidária. Trocando em miúdos, Boaventura acerta sua análise diretamente no alvo quando diz que o cidadão médio do mundo capitalista  encontra sua participação  política única e exclusivamente no ato de votar, denegando todas as outras: hábitos de consumo, ação nas esferas da educação e do trabalho, debate daquilo que é exposto nos grandes meios de comunicação, etc.
Em termos psicanalíticos, a democracia capitalista captura o sujeito na esfera simbólica das preocupações cotidianas de uma espécie de eterno presente: o dólar, a bolsa, o emprego, a criminalidade que irrompe na vizinhança outrora imaculada. O exercício da utopia, essa busca por uma outra realidade, o sonho, o exercício de outros possíveis  é amputada e sua lacuna é preenchida por um universo de pura reação. Reação é uma expressão do sintoma e "reacionário" um sinônimo de fascista, nazista, conservador, aquele que age e irrompe em ódio e violência  para que, no fim, as coisas permaneçam como estão, daí a polêmica declaração de Zizek na qual ele diz que Ghandi foi mais violento que Hitler. O nazismo nada mais foi que uma virulenta reação de manutenção do eixo do poder higienista e capitalista no século XX e findou por colocar boa parte do mundo ocidental como refém dos "vencedores", delegando às democracias liberais o papel de guardiãs da liberdade e da inclusão.
E aqui encontramos  a verdadeira razão do "locus" cinematográfico das duas versões de "A onda": os EUA no início doas anos 80, no auge da democracia liberal e a  Alemanha do século XXI, principal potência capitalista européia e através de políticas e imigração e desenvolvimento parecia ter enterrado os fantasmas do nazismo para sempre.

terça-feira, 15 de março de 2016

Memórias póstumas de um zumbi ingênuo





Hoje é 15 de março de 2016 e a esfera pública brasileira convulsiona em uma guerra política, ideológica e informática. Neste momento todos os periódicos do Brasil, impressos, televisivos ou eletrônicos apresentam a delação de um Senador que é o símbolo daquilo que os analistas chamam de fisiologia política. Delcídio pe um daqueles políticos que se adaptou perfeitamente àquilo que se chama eufemisticamente de governabilidade (não confundir com a governamentalidade de Foucault. Aliás, aproveito que citei o grande pensador francês para citar outra obra famosa "Vigiar e Punir", na qual ele apresenta as horripilantes descrições dos grandes espetáculos punitivos  que preexistiram as penas disciplinares  até meados do século XIX. Em muitos dos suplícios, os condenados tinham que ser amordaçados ou ter alguma espécie  de freio na língua porque as autoridades eclesiais e feudais temiam que, à beira da morte inevitável, falassem livre e irresponsavelmente ou blasfemassem.Sim, meus caros, os supliciados, por vezes, eram delatores não premiados. Pois nosso caríssimo Delcídio Amaral possui uma grande ficha de serviços prestados a governabilidade política brasileira,e, atolado até o pescoço e exposto em praça pública em um grande circo de interesses, resolveu abrir o bico com a galhardia de quem será torturado, esquartejado e queimado. E no texto da Delação suplicial de Delcídio, tal qual a série de TV "The Walking Dead' na qual todo mundo vestá infectado e cedo ou tarde vai virar Zumbi, é questão de tempo para todos nós sermos corruptos e cairmos na Operação Lava-Jato, 
 Em nossa recente história democrática,  um mesmo tipo de transformação parece se repetir, como diria Zizek, primeiro como tragédia depois como farsa: a metamorfose invertida da borboleta política, filosófica e idealista em larva rastejante e mesquinha  da fisiologia  administrativa. Após os turbulentos anos da eleição  fracassada de Fernando Collor,  subiu ao poder o príncipe dos sociólogos, Fernando Henrique Cardoso, que muito pouco de sua sociologia aplicou na administração do país, marcada pela radical retirada do Estado da vida pública.

Após 08 anos tomaram o poder seus opositores, vinculados ao partido político mais democrático e engajado politicamente de nossa história, forjado em décadas de movimentos sociais e lutas por direitos humanos e já tendo provado que o sonho era possível através de administrações estaduais em municipais (algumas como Porto Alegre foram exemplo de esquerda para o MUNDO). Pena que o Lula colocou terno e gravata, cortou a barba e parou de falar mal da Rede Globo...

. A administradora Dilma  Roussef diminuiu impostos das grandes montadoras de automóveis  e se recusou a negociar com o motor intelectual do país, a  classe que mais lutou ideologicamente para elegê-la por duas longas greves seguidas.  Pois após quatro anos de administração pragmática  a mesma classe que criticou Dilma por 4 anos  lutou bravamente para reelegê-la, aderindo a uma arriscada, porém necessária lógica de ruim com ela, pior sem ela. Eu votei em Dilma no segundo turno porque passei 8 anos vendo minha Universidade ser sucateada pelo PSDB, agora vejo que, assim como os Sociais Democratas foram transformados em Zumbis pelo PFL (hoje DEM), o Partido dos Trabalhadores deixou  o simulacro de direita do PMDB crescer em seu governo como um câncer. E hoje vemos a esquerda e a direita se esfaquearem a esmo em uma guerra sem fim pelo poder, e a semente do fascismo cresce a cada dia com a ascensão de sujeitos infames como Bolsonaro, Silas Malafaia, Revoltados Oline e Movimento Brasil Livre. Mas o que aconteceu com a esquerda no Brasil, especificamente com o PT, para além da sabotagem e do eterno ódio de boa parte das elites?

Não sei exatamente como ou o por que, mas sempre que penso na história do Partido dos Trabalhadores no Brasil, desde a eleição do lendário Olivio Dutra em Porto Alegre até Dilma Roussef, lembro de Machado de Assis, e da teoria das janelas.

Machado de Assis foi autor de uma  obra revolucionária na história da literatura, a qual li mais de uma vez quando ainda freqüentava os bancos escolares, e hoje ainda encontra-se fixada em minha retina: Memórias Póstumas de Brás Cubas.  Para minha percepção ligeira de adolescente, a  primeira leitura, atravessada pela sofreguidão do encontro,  foi longa, extensa, tortuosa, tal é a complexidade de reflexões e inflexões profundas e cáusticas do personagem principal, Brás Cubas, cuja narrativa parte de um lugar discursivo absurdo: as memórias de um defunto. É claro que, já nos anos 90, isso não me surpreendeu, afinal, o século XX foi saturado de histórias de mortos-vivos através da literatura  aventuresca ou do cinema, mas, segundo dizia minha professora de literatura,  em 1880, em um Brasil pouco alfabetizado, um livro inicialmente publicado em capítulos em um jornal e escrito em primeira pessoa por um defunto provavelmente provocou náuseas legítimas nos leitores, afinal, a literatura, a música e o teatro condensavam toda a carga de alucinações artísticas e ficcionais que o cinema e a televisão hoje quase monopolizam.

E, ademais, em sua funérea narrativa, Brás Cubas delineia a constrangedora saga de um burguês medíocre, mesquinho, um dândi vagabundo e de vida fácil, absolutamente desprovido  de moral e consciência. Filho de uma elite abastada, o personagem, ao longo de sua vida usufrui e corrói a fortuna de seu pai  enquanto experimenta diferentes carreiras profissionais fracassadas e relações amorosas inconclusas, cujo abandono é justificado por um cinismo mórbido, ressentido, corrosivo. Em algum momento do romance Brás Cubas se apaixona por uma linda mulher,  cujo único defeito é ser manca, e sua narrativa da relação é repleta de amor, paixão mas sempre atravessada pela ideia fixa  em torno do defeito físico da amada, culminando no seu abandono lento e absolutamente inescrupuloso, sutil, como se claudicasse em reconhecer que de fato a rejeitara.

Nosso mais famoso Zumbi abre o romance com uma dedicatória:

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança, estas memórias póstumas”.

Uma espécie de alívio autopunitivo, porém desprovido de culpa, afinal, apenas depois de morto o canalha decide narrar sua farsa biográfica. Machado de Assis  era mulato nasceu pobre e adquiriu prestígio, dinheiro e posição social com seu próprio talento e disciplina, em uma época em que nosso país ainda vivia na escravocracia e era comum membros da elite decadente viverem de favor ou adquirirem lugar social pela bajulação. “Memórias Póstumas” é uma espécie de desabafo escrito como contraponto a seus colegas  de juventude, os escritores e poetas românticos, divididos entre narrativas nacionalistas e ufanistas ou heróis do estilo mal-do-século, a maioria mortos ainda na juventude. Pois o principal sobrevivente da geração romântica carregou seus contos, crônicas e romances de uma aguda e  ferina crítica dos costumes, e não é a toa que tenha se tornado  o grande expoente do chamado realismo.

E a “realidade  realista”  cínica e pragmática e do Brasil talvez tenha mudado muito pouco desde então, como Brás cubas exemplifica na sua teoria das janelas, na qual sempre que se fecha uma janela, é preciso abrir outra. A teoria das janelas surge em minha passagem preferida do livro, a meu ver a síntese de no que a esquerda brasileira  se tornou  ao assumir a presidência  da república no Brasil.

Na ocasião, Brás Cubas andava pela rua e encontrou uma moeda, uma meia dobra de ouro:

“Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti uns repelões da consciência, e uma voz que me perguntava por que diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas somente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro, daquele que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum operário que não teria com que dar de comer à mulher e aos filhos; mas se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda e o melhor meio, o único meio, era fazê-lo por intermédio de um anúncio ou da polícia. Enviei um carta ao chefe de polícia, remetendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse devolvê-lo às mãos do verdadeiro dono.

Mandei a carta e almocei tranqüilo, posso até dizer que jubiloso. Minha consciência valsara tanto na véspera, que chegou a ficar sufocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de ar puro, e a pobre dama respirou à larga. Ventilai as consciências! não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaisquer outras circunstâncias, o meu ato era bonito, porque exprimia um justo escrúpulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ela me dizia, reclinada ao peitoril da janela aberta.”
Alguns dias depois, caminhando pela praia em Botafogo, nosso herói tropeça em um misterioso embrulho. Como não havia ninguém por perto, resolve levá-lo para casa e verificar seu conteúdo: cinco contos de réis, que fazem novamente seu pensamento vibrar e refletir moralmente e finalmente agir da maneira mais sensata e pragmática possível.

Não se perdem cinco contos, como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos, apalpam-se a miúdo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim totalmente, numa praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado; nem crime, nem desonra, nem nada que embaciasse o caráter de um homem. Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas de cavalo, como os ganhos de um jogo honesto e até direi que a minha felicidade era merecida, porque eu não me sentia mau, nem indigno dos benefícios da Providência.

— Estes cinco contos, dizia eu comigo, três semanas depois, hei de empregá-los em alguma ação boa, talvez um dote a alguma menina pobre, ou outra coisa assim... hei de ver...
Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brasil. Lá me receberam com muitas e delicadas alusões ao caso da meia dobra, cuja notícia andava já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado que a coisa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então a modéstia, — e porque eu me encolerizasse, replicaram-me que era simplesmente grande.”

E eu pouco mais tenho a dizer,  eu poderia encerrar esta coluna tentando imaginar nossa presidenta e nossos políticos   dizendo nas entrelinhas que é fácil ser revolucionário ou anarquista quando não temos um país para administrar ou contas a prestar ao FMI. Mas prefiro deixo o grande Machado de Assis falar por mim, por enquanto  não consigo pensar em nada mais original...

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

"Este caminho, ou nenhum caminho":David Bowie não queria ser herói, e muito menos morrer...





David Bowie não queria ser herói. Nem por um dia, nem por um segundo. Ele também não queria morrer. Eu também não quero. Ele tinha muito medo da morte. Eu também tenho. Eu odeio pensar no assunto, evito, sério. Não sei se felizmente ou infelizmente eu me despi de toda possibilidade de ilusão de que há reencarnação, céu, inferno, Valhalla, Elísio,  fantasmas, ou quaisquer fantasias sobre uma possível existência fora desta carcaça oriunda de um universo sem sentido
Como milhões de pessoas pelo mundo e algumas dezenas de amigos que tenho no Facebook, sou fã de David Bowie desde os dez anos de idade, quando vi o filme "Labirinto" e ganhei sua trilha sonora de presente em vinil. Até os 16 anos, quando tentei aprender a tocar guitarra e meu professor ensinou "Ziggy Stardust". Aprendi a música sem nunca tê-la escutado e  fiquei  muito curioso. Mergulhei no caleidoscópio sonoro rock-pop-progressivo-acústico-estético que Bowie criou a partir do fim dos anos 60 com "Space Odditty", "The rise and fall" entre outros.
Escutar David Bowie é como ver filmes do Kubrick ou quadros de Goya ou Salvador Dali, como comer melancia gelada em um dia quente ou o sorvete da Banca 40 do mercado público.  Há um sentido tão radical na experiência que ela nunca se repete mesmo sendo a mesma. Como boa parte dos seus admiradores, nunca o vi pessoalmente, nem sequer fui a um de seus shows.Há mais de uma década que Bowie não subia no palco, após  ter um infarto, e sempre foi reservado com relação a sua vida pessoal. Mas Freud, em "Luto e melancolia" diz que  a morte de uma pessoa nos provoca uma espécie de psicose temporária, afinal, o corpo "físico" jamais teria sentido sem uma espécie de "alucinação" fantasiosa, a imagem virtual da pessoa que perdemos sem a qual seria impossível sequer pensar sobre ela, o processo de luto envolve, então uma certa coexistência psíquica entre o imaginário e a "realidade".Os ídolos são, para seus fãs, às vezes pessoas mais "reais" ou mais "íntimas" que seus próprios familiares. Quem já experimentou a companhia de uma música quando  esteve sozinho no mundo sabe disso. Quem já foi adolescente e viveu a radicalidade do rock entende melhor do que ninguém.
A notícia da morte de David foi recebida por todos com impacto, como os dinossauros que surgiram após estarem mortos a milhões de anos, tal qual uma estrela  há anos-luz de distância, David Bowie apareceu  e explodiu na esfera pública após estar morto. E justamente com um disco chamado Blackstar (estrela negra). Acordei cedo pela manhã  quando abri o Facebook já estavva lá estampada a notícia no feed da BBC. David Bowie morreu. Meu coração disparou. Fiquei triste, chorei. Como havia chorado recentemente a morte de Lemmy, do Motorhead, e de meu conterrâneo Júpiter Maçã. Até aí apenas mais da mesma tristeza.
Mas a notícia trazia ainda que Bowie lançara um disco novo três dias antes de morrer.Imediatamente fui no Itunes e baixei, não dando importância ao dinheiro. E escutei.A primeira música tem dez minutos, se chama Blackstar. Aí, em pleno verão de Forno Alegre, senti frio. Frio nos olhos, frio nos ouvidos, frio nos neurônios.
Aí o feed do facebook avisou que a música tinha um videoclip, bem como outra faixa chamada Lazarus abri o youtube  e assisti ambos.
Então parei de chorar a morte de Bowie, e passei a lamentar pela MINHA morte.
Sim, o album todo é lúgubre e tanto a faixa "Blackstar" quanto "Lazarus" são absolutamente tristes, mas Bowie é também mestre da imagem, e  a explosão estelar de sua derradeira obra é que ele grita, berra, ruge que já sabia  de sua morte iminente.. não, mais, ele já estava morto quando fez o álbum (como diz o título de uma música sua de 1997 do álbum "Earthling" : "Dead man walking).
Em ambos os vídeos o cantor aparece com o rosto vendado por uma atadura com dois botões costurados no lugar dos olhos, como diz sua música sobre a morte "My death" de 1973 "My death waits like a beggar blind" (minha morte espera como um pedinte cego") ou ao "Lepper Messiah" de Ziggy Stardust e em "Blackstar" a primeira imagem é a de um astronauta morto dentro de um traje furado e remendado com fita isolante, diante de um eclipse (estrela negra). Nem seria necessário falar das referências a "Star man" e "Space Oddity".
David Bowie fez seu último disco sabendo que ia morrer, e sua performance em seus videoclips é de alguém furioso, revoltado, em pânico, desesperado. "This way or no way" canta em  "Lazarus", visivelmente debilitado, envelhecido, sem maquiagem ou glamour, em uma cama de hospital, esquálido, exatamente como estava na vida rea, e absolutamente desesperado.
Ele tinha medo da morte, ele pensou em Lazarus porque Lazarus ressuscitou, e ele grita a letra com medo  e dor, porque quer ressuscitar também.
Eu penso assim, porque também vou morrer, todos vamos morrer, por mais  longa e próspera que seja nossa vida, um dia vamos morrer, e não há lugar para ir, apenas neurônios mortos  e nenhum pensamento, nem nada, porque o nada é ainda pensável, Diz Lacan que a morte não existe, ela é apenas crença. Quando penso em morte penso apenas em pânico.
Diz Bowie em um trecho melodioso de "Black star" atravessado por um  chorus dissonante e incômodo:
"I can’t answer why (I’m a blackstar)
Just go with me (I’m not a filmstar)
I’m-a take you home (I’m a blackstar)
Take your passport and shoes (I’m not a popstar)
And your sedatives, boo (I’m a blackstar)
You’re a flash in the pan (I’m not a marvel star)
I’m the great I am (I’m a blackstar)"

No chorus dissonante Bowie diz "eu não sou uma estrela de cinema, eu não sou um popstar, eu não sou uma estrela maravilhosa, eu sou uma estrela negra"
E seu último disco tem na capa apenas uma estrela negra  geométrica  e nada mais.
E Bowie certamente estava cagando e andando para o fato de ter entrado para história, para a eternidade dos ídolos do rock ou por estar vivo em nossas memórias.
Ele não queria morrer.