Não fuja da luta, covarde

Não fuja da luta, covarde
Empate

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

As peles que me habitam ou sobre a tatuagem (Por Fábio Dal Molin)


 

Sou um adepto da arte da tatuagem desde os 17 anos e já experimentei todos os possíveis sentidos e sensações de imprimir desenhos na carne. Minha primeira experiência foi impensada e intuitiva. Em 1992 eu tinha cabelos compridos e fazia parte da cultura Heavy Metal de Porto Alegre. Naquela época apenas punks e headbangers tinham tatuagens e conheci um sujeito que em pouco tempo virou meu melhor amigo. Ele era uma das poucas pessoas que tinham os braços cheios de tatoos, era muito inteligente, culto e sensível, não bebia nem fumava apesar de que seu visual na época parecia demonstrar o oposto. "O discurso que não era semblante", parafraseando Lacan no seu seminário 18, enfim, o que cconhecemos de uma pessoa às vezes é apenas nosso olhar (seminário 11) e a luz que reflete dela. O resto é embaixo da pele.
Meu amigo me levou ao estúdio do Frank Tatoo, um sujeito careca com roupas de couro, o estereótipo do tatuador oficial dos Hell 's Angels. Um cara grosseirão e espontâneo. Meu amigo foi lá para agendar uma sessão. Eu fiquei obcecado com aquilo. Naquela época os estúdios de tatuagem eram abertos e tinham vários catálogos espalhados. Peguei um deles e olhei as tatoos menores. Vi uma aranha bem pequena e perguntei o preço. Era algo tipo 50 reais. Esvaziei meus bolsos e fiz ali, na hora, em 20 minutos, sentindo a ´pior dor da minha vida, sem imaginar todas as consequencias, afinal para a maioria de nossas experiências somos como crianças que vivem no mundo da fantasia. No meu caso achava que era só pintar a pele e tudo terminava.... Sua majestade o bebê.
Foi a maior e mais radical experiência da minha vida, aos 17 anos experimentei a injunção, a fase fálica, eu me inscrevi no mundo dos cabeludos tatuados rebeldes, marinheiros, motoqueiros, músicos de banda. Eu era imortal. Minha sensação de poder aumentou quando uma menina apareceu no estúdio enquanto eu sofria as agulhadas e perguntou de valores e horários. Frank perguntou a idade dela (14). Então ele disse que menores de 18 precisavam de documento de identidade e a autorização dos pais. A menina foi embora meio decepcionada enquanto eu estava bem quieto e sorridente sendo desenhado aos 17 anos. Uma semana depois tive um problema de pele e cortei o cabelo... No mesmo dia peguei minha coleção de discos de vinil e vendi. Com o dinheiro fui a outro tatuador lendário, Marcos, e realizei um velho sonho: tatuar o anjo caído, o selo da gravadora Swann Song do Led Zeppelin, minha banda favorita. 3 horas de dor e sangue e em menos de duas semanas eu já tinha duas tatoos, que fizeram sutura do luto do cabelo comprido.
No filme "O livro de cabeceira" de Peter Greenaway, a personagem principal tem uma compulsão por pintura a tinta no corpo que a fazia reinscrever constantemente um ritual edipiano criado por seu pai. No fim do livro, após realizar o desejo de matar seu amante-pai-imaginário, a personagem entra no registro do mundo adulto gerando um filho, e suas pinturas transitórias são substituídas por tatuagens orientais tradicionais. Na cena final ela amamenta seu filho exibindo os braços "fechados", uma tradição japonesa de saturar cada centímetro de pele.
A tatuagem para mim representou uma marca.
É muito difícil explicar de fato o que é o processo, mas ele é absolutamente singular e idiossincratico, e representa muito mais do que desenhar na pele. Eu li poucos ensaios psicanalíticos sobre tatuagem, a maioria de pessoas que nunca experimentaram as agulhas elétricas e produziram textos teóricos, vagos, preconceituosos...A exceção é minha amiga e colega Heloisa Helena Marcon, que nos traz esse belo texto, É claro que ela também é uma adepta dessa nobre arte
https://appoa.org.br/uploads/arquivos/correio/correio182.pdf

Os melhores trabalhos sobre o assunto vem da antropologia, de estudos etnográfico sobre como as pessoas dão sentido aos seus desenhos, e como as culturas se modificam e também engendram novos sentidos. Quando fiz minhas primeiras tatoos eu as exibia como orgulho da rebeldia adolescente, minha mãe odiou, passou a me ver como um corpo estranho (isso talvez me tenha catapultado do Édipo), as pessoas me paravam na rua para me perguntar se eu não me arrependeria. Eu cultivava ódio e discriminação, mas também temor e admiração.
Nesses 29 anos já experimentei a rebeldia da adolescência quando Porto Alegre tinha apenas cinco tatuadores, e minhas duas primeiras foram sem luva e sem curativo..
Muita dor e sangue.
Eu voltei a me tatuar depois dos 30 e aí virou uma body art, já escolhi desenhos por sua beleza e história, mas também já me submeti a arte dos tatuadores
Hoje experimento a tatoo como um ritual de criação, recriação, dor, cura,.morte e ressurreição.
Freud, na sua "introdução ao narcisismo" trata da impossibilidade de nosso corpo ser experimentado sem a representação, sem esse olhar do Outro, sem esse eu que olha para si mesmo e em uma segunda instância se engendra na interface de ser olhado. Quando temos uma dor de barriga pensamos imediatamente na palavra dor e na palavra barriga e logo fantasiamos sobre gastrites ou gases. A tatuagem representa um tipo de trabalho sublimado e encarnado dessa construção de sentidos. Com os anos as tatoos vão circulando entre o real, o imaginário e o simbólico. Hoje eu as vejo como roupas inversas, que posso vestir ao desnudar e esconder ao vestir.
No japão os membros da Yakuza chergam a tatuar 100 por cento do corpo, e no cotidiano o mantém coberto de terno e gravata. Eu também posso fazer isso. Posso provocar no outro a fantasia de que minha pele é limpa e incólume, e desnudá-la aos poucos. Assim é com todo o resto, não?
A pele é nosso órgão mais profundo, diz Paul Valery.

Desde o momento que a tatoo é pensada e imaginada até a última agulhadas, nosso corpo nunca mais será o mesmo, mais do que uma prótese, a tatuagem inaugura um novo esquema corporal.

Na última sexta fiz minha décima sexta tatuagem minha primeira no estilo old school ( que, 40 anos atrás não existia porque simplesmente era "a tatuagem") e fui pesquisar as últimas tendências no processo de cicatrização, e para minha surpresa a tatuagem ainda permanece um mistério. Não é nem uma ferida nem uma assadura e a bula da pomada diz " siga as instruções do tatuador ".

Agora posso dar dicas de como proporcionar uma boa experiência de cicatrização.
Em primeiro lugar reserve um turno para fazer a tatoo. Um bom tatuador não irá simplesmente desenhar no seu corpo. Há uma ciência específica de forma, sombra, ângulo e transposição do desenho para a pele. O tatuador experiente injeta tinta antecipando seus efeitos futuros até mesmo depois da cicatrização.
Também recomendo fazer na sexta ou fim de semana e se programar para descansar,.porque a tatoo incha, sangra dói,.demora, é cansativo. Eu não recomendo analgésicos . Como diz Tyler Durden: esse é o grande momento da sua vida,.não desperdice.
Além disso a dor aumenta a inexplicável sensação de prazer de ver o " trampo" pronto, tinindo,cheio de cor e que será o resto da vida da nossa pele.
Nas minhas primeiras tatoos ganhei um pedaço de papel escrito " vasenol" e só.
Anos depois estranhei o curativo feito com insufilm e o uso de pomadas como bepantol.
Mas minha última pesquisa me fez experimentar uma técnica definitiva e a tatoo está cicatrizando bem rápido. Ah, e o bepantol não estraga a tatoo nem remove pigmento. Isso é lenda urbana de quem não cuidou direito ou foi a um tatuador inexperiente ou que usou materiais inadequados. Muitas vezes os leigos se deslumbram com qualquer um que compra uma máquina e sai fazendo decalques.
O Bepantol ou bepantriz é uma pomada para assadura. A tatuagem recem feita é algo entre um esfolão e uma assadura. Parafraseando Lacan, a tatoo é lituraterra, é traço unário, é um sulco na pele, é o espaço entre, a lamela....
A agulha injeta tinta na segunda camada da pele e remove a primeira,.mas rompe apenas a circulação mais superficial. Por isso as vezes nem sangra.
Então é fundamental que a tatoo recém feita seja apenas lavada com sabão neutro ou bactericida e envolvida em filme plástico três vezes por dia para evitar infecção e também para que os próprios fluidos corporais a hidratem. Plástico também protege dos atritos
Depois de 3 a cinco dias o corpo já cria uma camada de proteção ( como a das queimaduras solares) e então é a hora de usar e abusar da pomada cicatrizante até a casca cair toda. Isso irá manter a pele hidratada e renovada . Depois da casca cair e a pele nova se consolidar então é a hora de usar um bom hidratante e evitar insolação por pelo menos um mes..
A dica de sempre é: economize dinheiro e tenha bom gosto, tatoos pequenas não podem ter muitos detalhes e tatoos grandes demoram e precisam ser bem pensadas.
A trilogia é : dói, é caro e não sai.
Fique longe do amigo que quer te tatuar de graça. A pele é um bem durável.
Olhe o portfólio de seu tatuador e procure ver se ele já participou de convenções. Eu já me tatuei em duas e uma ganhou prêmio.
É do nosso corpo que falamos
A foto acima é de de minha última tatoo, de autoria e agulhadas do Eduardo Reis, meu velho parceiro, da Tatuaria Reis, na Coronel Genuíno 201, Centro Histórico.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Ninguém sabe que eu estou aqui" Gaspar Antillo, 2020





Fabio Dal Molin
Memo Garrido (Jorge Garcia) chegou a me enganar "Parece o cara do Lost" pensei ao assistir de coração apertado esse pequeno e denso filme Chileno de belissima fotografia e história original, Memo é um personagem tão grande em tamanho e em eloqüencia subjetiva que Jorge pareceu pequenininho e acabou realizando o título do filme em meu ponto cego.
A história trata dos percursos e percalços da aventura heróica frente a nossa constituição como sujeitos da fala (no caso do canto) frente aos impasses da mefamorfose paterna. Memo é um menino gordinho e expressivo com uma voz de anjo que, para que seu pai pudesse lucrar com seu talento, foi obrigado a esconder seu corpo e a emprestar sua voz a outra criança cuja aparência se encaixasse mais no mainstream da infância prodígio. O pai de de Memo opera uma intrusão Real ao separar quase cirurgicamente seu corpo (condenado ao ostracismo dos bastidores) e sua voz ( arremetida ao mundo do grande Outro do universo Pop). A primeira tentativa de Memo de sair dessa posição aniquiladora se dá por uma passagem ao violenta, o que acarraeta em uma punição severa que separa mais ainda de si mesmo e o condena ao ostracismo em uma ilha sem energia elétrica, acesso por terra ou ao mínimo convívio social
. Impedido de falar, Memo torna-se um adulto sem fala, esconde a si e a seu canto em algum canto do mundo cuidando de ovelhas e invadindo casas de veraneio vazias onde simula uma inscrição na vida "normal" sendo criado por um tio amoroso e paciencioso que ocupa a importante função de pai imaginário .
A partir de uma nova passagem ao ato onde seu tio tem uma parte do corpo obliterada e é forçado a uma ausência, uma outra figura, uma mulher , amiga, ouvinte, olhante, convida amorosamente Memo a sair de sua posição de ostracismo e experimentar a angústia do retorno dessa intrusão do real, seu pai retorna repentinamente e com ele toda o Real saturnino, impositor, castrador. Contudo, a força pulsional da voz e do amor faz furo nesse real, rompe essa cadeia de repetição, e é canalizada por algo de um olhar que devolve a Memo sua própria imagem invertida e revertida e o faz superar esse pai Real destruidor e brotar como sujeito dono de sua própria voz e de sua própria existência.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

O Brasil e a Necro-Lógica na crise do COVID19



Bolsonaro é uma criatura atavica, mas quem puxa as cordinhas desse brinquedo assassino é mortalmente genial, e tem lógica. 
É uma necro-logica
Alguém que está lendo esse texto já morreu e. Um acidente de trânsito?
Sim, a pergunta é absurda.
Mas do que temos mais medo? Morrer ou sofrer um acidente de trânsito?
Morrer, óbvio (palavra da moda no netflix)
Mas o que nos incomoda mais? Quantos faróis quebrados ou parachoques amassados já enfrentamos e quanto dinheiro e  tempo gastamos .
Mas morrer não nos incomoda, porque estamos vivos.
Então o que nos molesta mais, morrer ou ficar pobre e desempregado? A segunda opção,  é claro. É a lógica da série Law  and  order SVU: vítimas de crimes sexuais sofrem, as de homicídio não...
Então a estratégia de Bolsonaro  é uma entre tantas que ele tirou da esquerda: dizer que se preocupa com os pobres e que morrem mais pessoas em acidentes de trânsito, tiroteios ou problemas cardíacos, ataca a mídia ( Globo) e defende a liberdade de manifestação na rua.
É claro que nem ele nem seus seguidores ( e de certa forma nenhum de nós hoje ) está preocupado com as milhares de pessoas que morrem no Brasil todo  ano, mas sabem que perto delas  o Corona não é nada. É uma verdade estatística . Vai  passar, mas a economia neoliberal que já estava em frangalhos não vai se restaurar e vamos seguir no eterno ciclo de reformas  e ataques ao serviço público.
Para Bolsonaro e  seus seguidores,  60 mil pobres mortos por tiroteio todo mês é uma estatística.  Um shopping falido é uma tragédia.
Opa essa frase não uma paráfrase do Stalin ?
É , pois é.
Da mesma forma que a facada , a coçadinha no nariz foi no momento certo e planejado .

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Internet, capitalismo de rapina e a Guerra do Irã



Entrevista na íntegra concedida a jornalista  Camila Rosa, para a Folha de Londrina em 07/01/2019
  • Quais os resquícios da 2° Guerra Mundial, ou quais heranças deixadas para que se pense em uma nova Guerra;
      Resposta
No contexto de nossa conversa aqui podemos colocar que as guerras em geral possuem dois elementos: o econômico e o ideológico. Um não existe sem o outro: quem financia um exército o faz para conquistar novos territórios, obter lucro no comércio e consumo de armamentos ou angariar espólios dos vencidos enquanto aqueles que lutam no front  dificilmente arriscam suas vidas por isso, e para tanto surgem as motivações nacionalistas, religiosas ou étnicas como uma espécie de combustível.
Cientístas políticos como Eric Hobsbawn e  Zygmunt Bauman afirmam que as duas grandes guerras  Mundiais foram o verdadeiro início do século XX. A primeira guerra teve como mote ideológico um conflito nacionalista, enquanto a Segunda Guerra foi fortemente marcada por questões etnicas. Em ambas os Estados Unidos da América participou estando a um oceano de distância e mantendo seu parque industrial intocado e funcionando a pleno vapor. O que pouca gente fala é que a Segunda Guerra mundial foi fundamental para salvar a economia  que havia sido destruída pela quebra da bolsa de valores de 1929, pois um armistício  de tal proporção, além de armamentos, necessita de mantimentos, vestuário, transporte e, principalmente, comunicação, tudo isso impulsionado por desenvolvimento tecnológico. Todas as nações europeias e orientais envolvidas no conflito sofreram graves prejuizos materiais e financeiros com os bombardeios, parques industriais inteiros foram sucateados enquanto os EUA, além de tudo, deu asilo político a grandes cientistas alemães que incrementaram ainda mais sua industria bélica, entre eles os idealizadores das bombas atômicas lançadas em Hiroxima e Nagasaki.
Tanto  a crise de 1929 quanto o nazismo as revoluções comunistas da China e da Russia foram frutos de problemas da grande desigualdade social, e o mundo ocidental do pós guerra se reestruturou para evitar novas insurreições e teve início aquilo que os sociólogos chamam de "os 30 gloriosos". Sob a batuta economica e ideológica dos EUA e da Inglaterra uma parte do planeta experimentou seu apogeu de desenvolvimento industrial, tecnológico, financeiro e social. É claro que tudo foi às custas da total exploração das colônias africanas, do sudeste asiático e da America Latina, todas fornecedoras de fartas reservas de minério, petróleo, terras cultiváveis e mão de obra barata ou semi escravizada.
A grande questão atual é que todo isso está se esgotando. A sociedade humana  consumista dos séculos XX e XXI se desenvolveu através do esgotamento de recursos materiais não renováveis do planeta e da enorme ( e cada vez maior) concentração de renda. As sucessivas revoluções tecnológicas que tiveram início no século XIX, associadas com a necessidade do barateamento da mão de obra e das mercadorias tiveram como consequencia inevitável um fenômeno que inciou com força nos anos 70 e veio para ficar, e provoca hoje o pesadelo dos economistas políticos: o desemprego estrutural e a formação de uma gigantesca massa de seres humanos não mais desempregados, mas "inempregáveis", inúteis e desnecessários, sem nenhuma capacidade de venda de sua força de trabalho.
É quase unanimidade entre os cientistas políticos que se debruçam sobre as crises do capitalismo: a porção humana do planeta Terra habitada por nós está prestes a entrar em um colapso: há cada vez menos trabalho humano a ser explorado, bem como recursos naturais. Calcula-se que o PIB da produção material do MUNDO inteiro seja de 200 trilhões de dólares e o PIB financeiro, ou seja, de existência apenas virtual,seja da ordem de 1 quadrilhão. Em 2030 teremos mais de 800 milhões de seres humanos considerados supérfluos pela economia capitalista.
Um exemplo disso é a Amazon e o Google. Se entrarmos na loja virtual da livraria e adquirirmos um e-book, esta operação não terá nenhum trabalhador humano envolvido. Atualmente o Google, a maior empresa do mundo, possui  em torno de 50.000 empregados, e estima-se que em uma década será uma inteligência artificial autônoma.
O que fazer com essa enorme massa de seres humanos substituídos por máquinas?

  •  Como explicar o comportamento atual das pessoas aos supostos rumores de um 3° Guerra;
Eu cito aqui dois filósofos importantes um brasileiro e um camaronês. O brasileiro é Marildo Menegat, professor da UFRJ. Menegat, a partir do que eu disse na pergunta anterior,  afirma que capitalismo chegou em uma fase em que as questões clássicas modernas, de manutenção de uma sociedade desenvolvida, de bem estar ou de emprego não interessa mais.
Como eu disse no início da entrevista, a guerra possui componentes  e economicos associados a um combustível ideológico. Na verdade, a existência humana pode ser definida assim: nossa vida é composta por elementos materiais e concretos mas sem a linguagem como suporte simbólico jamais seríamos capazes de sequer definir o que é ser humano.
Os reais motivos dos EUA entrarem em conflito com países como Venezuela, Afeganistão e Iraque são simples e estão até no senso comum: energia e rotas comerciais. São os mesmos da Segunda Guerra porém com uma terrível novidade: resta pouco planeta para explorar e as grandes corporações que financiam a guerra  já não estão mais interessadas em manter a sociedade de consumo e o capitalismo. Segundo outro filósofo famoso, Bruno Latour, é óbvio que a negação do aquecimento global ou o terraplanismo são um disfarce, uma cortina de fumaça. O que os grandes acumuladores de capital do mundo estão fazendo é uma aposta:o que acaba primeiro, o planeta ou o capital.
Aqui recorro ao camaronês Achille Mbembe, que recentemente publicou um ensaio muito famoso no meio acadêmico chamado "Necropolítica". Em linhas gerais Mbembe considera que a era do "humanismo" iniciada na revolução francesa acabou e que todas os conflitos bélicos atuais apresentam como característica o puro e simples extermínio de sujeitos considerados desnecessários. Nos anos 70 Michel Foucault cunhou o termo "biopolítica" que seria o governo e a deminstração da vida pelo controle do estado, das grandes empresas e das ciências biológicas, estatísticas e humanas. Mbembe diz que não há mais interesse em governar e controlar as massas inempregáveis, e sim em exterminar. Para tanto basta analisar países da africa subsaariana produtores de platina, ouro, diamante ou outros metais preciosos, assim como a Síria, o Iraque e o Afeganistão:tais países hoje já não constituem mais nações autônomas e independentes e seus refugiados hoje se espalham pelo mundo todo, inclusive migrando para países também em guerra como o Brasil. Sim, eu afirmo, estamos em Guerra. Todo ano 60.000 mulheres e homemns são assaassinados no Brasil, em sua maioria jovens negras e negros que habitam zonas urbanas sem nenhuma assistência do Estado. Isso não é por acaso.
Eu repito: a parcela do planeta habitada pelo homo sapiens caminha cada vez mais para uma situação em que os 10 por cento que controlam 90 por cento da riqueza decidirão o que fazer com os 90 por cento que tem 10. Como atualmente  não há sinais de melhora,  a decisão é o exterminio até que esta maioria se insurja e o mundo mergulhe na barbárie da mesma forma que aconteceu há mil anos com o Império Romano, porém sem mais espaço habitavel no planeta.
Não é à toa que essa possível guerra tenha eclodido com o assassinato por controle remoto do líder militar de um país protagonizado por outro país e nações "civilizadas" como Alemanha e Inglaterra tenham assumido uma posição quase indiferente, assim como o comandante da polícia militar do Rio de Janeiro e seu Governador tenham considerado a morte de uma criança negra e pobre em um conflito armado urbano "ossos do ofício". 
 O mundo já vive uma Guerra mundial, e ela é contra os pobres. O que os EUA farão é apenas rapinar as últimas reservas de petróleo existentes.


Em que medida esse compartilhamento em massa de informações, nas redes sociais, afeta a vida das pessoas?
 No século XIX grandes massas migraram das zonas rurais para os grandes centros urbanos para trabalhar nas fábricas dando início a segunda revolução industrial. Nos dias  com a chamada quarta revolução tecnológica, que iniciou com a internet e hoje vive a era da chamada "governamentalidade algoritmica", é natural que os fluxos humanos fluam para onde o capital está. 
São apenas cinco grandes empresas – conhecidas como as Big Five – que se tornaram intermediárias poderosas de nossa vida digital: Apple, Google, Microsoft, Facebook e Amazon[1]. Em 2017, essas empresas passaram a ocupar as cinco primeiras posições no ranking das companhias mais valiosas do mundo, deixando para trás gigantescas corporações globais que durante décadas tinham posições de liderança como Exxon, Nestlé, Samsung, General Electric e Johnson & Johnson. Juntas, as cinco companhias valem ao redor de 3,3 trilhões de dólares (aproximadamente metade do PIB brasileiro de 2018). O atual ministro da Economia brasileiro Paulo Guedes, pretende economizar, com a reforma da previdência, 1 trilhão de REAIS em DEZ anos.
Pesquisadoras e pesquisadoras do mundo inteiro já estão estudando este fenômeno, e o chamam de "Capitalismo de Vigilância"; Somos sujeitos da linguagem e do simbólico, é isso que nos torna humanos, a realidade que vivemos é uma realidade virtual, quando temos uma dor de estômago nunca sentimos apenas a dor, já imaginamos a palavra "dor" e todas as suas significações. Nossa relação com o mundo nunca foi direta. As tecnologias apenas amplificam isso e, aliadas aos mecanismos de sedução e captura da economia e da política, hoje o mundo  humano que tem acesso a essas tecnologias está vivendo uma espécie de realidade paralela. 
O grande risco disso é justamente quando as regras do mundo virtual começam a coordenar e invadir a nossa vida subjetiva: as pessoas não mais compartilham de espaços de conversa e convivência, candidados a cargos políticos se elegem pura e simplesmente por serem youtubers ou celebridades do Twitter, informações falsas espalhadas pela rede são interpretadas como verdade (terra plana, movimentos anti vacina, etc)
Assim como Hittler conclamou a Alemanha a se unir contra o grande inimigo comum, os judeus, usando propaganda escrita e cinema, hoje os EUA usam o terrorismo  e a "autodefesa" e muitas fake news em Wtasapp, Facebook e Twitter para conquistar o apoio de bilhões de pessoas a defender um território que está a milhas de distância. Com o advento dos drones nem é mais um movimento pacifista solidário as famílias dos soldados mortos: estes serão em numero irrisório.
  
  • Qual o impacto do computador, e agora o celular, que exerce a mesma função e faz com que fiquemos conectados o dia todo, estando sempre ao alcance. 

Atualmente, o mundo comporta 4 bilhões de pessoas usando algum serviço conectado à internet, e até 2021 seremos 5 bilhões. O escândalo da Cambridge Analytica - empresa privada que combinava mineração e análise de dados com comunicação estratégica para processos eleitorais –
revelou o uso de dados de redes sociais sem autorização. Percebemos que os dados não identificados dessas redes, mais as imagens de câmeras de vigilância, GPS, buscas em plataformas como Google, Amazon, Instagram, lojas virtuais, etc. alimentam gigantescos bancos de dados e são transformados em capital e gerenciados por inteligência artificial.
O Brasil é o segundo país do planeta em tempo de conexão, em uma média de nove horas por dia por habitante, sendo que 133 milhões de brasileiros/as seguem perfis políticos nas redes sociais.
A palavra rede também guarda em si uma multiplicidade de sentidos e de inserção na esfera filosófica, tecnológica e política: podemos pensar as redes como espaço de conexões entre pessoas, como espaços de acolhimento e como aparelhos de captura.
 Na minha opinião, a única maneira de evitarmos o colapso mundial não é combatendo a tecnologia ou as grandes corporações. Estas já venceram.
O que podemos fazer é voltar a cultivar espaços de encontro, de solidariedade, fomentar outras modos de produção, de comunicação e de encontro entre pessoas

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

5 anos em V de novembro



A imagem pode conter: 1 pessoa
A imagem pode conter: 1 pessoa, em pé

Virtude, Vida, Verdade, Vitória, Vingança
"Por baixo dessa mascara não existe um homem, existe uma ideia, e ideias são a prova de balas” V.

Queridos e queridas afilhados e afilhadas
Permitam que eu me apresente, sou um homem de riquezas e bom gosto, estou aqui há muito tempo, e roubei as almas e a fé de muitos homens. Prazer em conhecer vocês, esperoque saibam meu nome.
Decidi escrever esta carta em primeiro lugar como agradecimento pela homenagem e pela lembrança nesse momento tão importante da vida de vocês. Estaremos juntos naquele quadro que enfeitará o prédio da psicologia até o fim dos tempos
Em segundo lugar o mais importante: ainda estou tentando entender por que diabos vocês resolveram fazer isso...
Um de meus textos preferidos de Freud é aquele que trata do humor e das tiradas espirituosas, e de quanto é importante para rirmos de algo que façamos parte de uma mesma paroquia, que sejamos envolvidos por um enlaçamento social, ou seja, é claro que essa piada tem mais graça apenas para alguém que porventura leia essa carta e não faça parte de todo universo discursivo e relacional que compartilhamos.
De qualquer jeito, agora recorro às lembranças da minha formatura e de tantas outras até então e me dou conta de que há um certo perfil para professores homenageados: pessoas doces, queridas, suaves,que ministraram varias disciplinas ou conviveram com a turma por todo o percurso academico. Eu não me encaixo em nenhuma dessas categorias... aliás sou contra homenagens, minha frase preferida é de Marx, (Grouxo, o humorista): “eu jamais entraria para um clube que me aceitasse como sócio”. Vocês ,mais do que ninguém,sabem sou uma pessoa convencional e tampouco essa homenagem o é.
Partindo do pressuposto psicanalítico de que nossos objetos de desejo são mais da parte desejante do que da desejada, penso ser importante e até divertido interrogar: por que eu? Por que nós? Por que agora?
Deixem que eu conte para vocês como foram minhas primeiras experiências docentes. A primeirissima vez que entrei em sala de aula como professor foi quando uma professora da UFRGS foi para os Estados Unidos celebrar o casamento da filha e confiou a mim as 8 ultimas aulas de Psicologia da Comunicação para uma turma de jornalismo e RP. Não sabia absolutamente nada da matéria, mas aceitei por uma simples razão, que agora surge como tema desta carta: eu tinha um sonho. Como vocês mais do que ninguém sabem, eu sou uma pessoa que vai direto ao ponto e no primeiro encontro com a turma eu realizei um sonho antigo de dar a aula em pé em cima da mesa, igualzinho ao meu filme preferido, o qual tenho certas duvidas se é muito atual ou ultrapassado “Sociedade dos poetas mortos”
Naquela segunda feira de março de 2015 eu também entrei na sala ansioso e cheio de esperança nervosa, afinal, nunca havia ministrado História da Psicologia, e também nunca tinha encarado uma turma de primeiro ano de nosso curso.
Eu lembro como se fosse hoje daqueles 100 olhos me fuzilando ( essa piada eu contei naquele dia, lembram?) cheios de vontade de aprender, e eu, sem nenhuma ideia de ensinar. Lembro agora que eu fui orador da minha turma no ensino médio e meu discurso só não me levou a expulsão porque era o dia da formatura. Entre o fim do colégio e os primeiros anos da faculdade fiz quatro anos de teatro, Eu sempre gostei de provocar reações nos outros, e ás vezes considerava a turma como se fosse minha platéia. Eu chegava na aula com meu livro do Nietzsche embaixo do braço e quando eu resolvia falar era para desconstruir tudo o que se dizia na aula.
E é de meu filósofo preferido que retiro a lição que nos interessa aqui, que é que todo mestre só sabe daquilo que diz respeito a discípulos, o que leva o sábio Zaratustra a dizer aos seus “não me sigam, escondam-se de mim, envergonhem-se de mim”.
Vocês sabem como isso funciona, e, como eu nunca havia visto em minha vida de docente, abraçaram esse paradoxo de seguir um guru sem delegar-lhe o poder da verdade, de apostar no desejo de saber jamais satisfeito no desejo de desejar. Diz Nietzsche em um poema que “ a verdade ama os guerreiros (ou guerreiras)”, assim como Sócrates se insurgiu contra os filósofos cínicos que vendiam a verdade a dinheiro, com seu método de dúvida vertiginosa e seu aforismo “só sei que nada sei”
Mas enfim o que nos faz professores? Eu recorro a meu livro de cabeceira, que foi-me apresentado pela vela na minha escuridão, mestra, mãe, amiga que saiu de minha vida como um membro amputado: Tania Galli Fonseca. O livro é do filósofo Jacques Ranciere, “O mestre ignorante” E ali ele fala que o professor jamais deve ensinar e não há aluno que não saiba. A lição aqui é de emancipação intelectual, de Hegel: professor e aluno precisam se libertar
O conhecimento não está em lugar nenhum senão entre nós, vínculos, sentimentos, cumplicidade.
Agora, o que eu, que encontrei vocês no começo, estou aqui novamente, no fim? Por que agora?
Todo mundo sabe que uma longa noite sobre nós, nosso Estado, nosso povo, nossas famílias e nossos modos de existir.
Vivemos um tempo de guerra, e uma guerra de verdade e de Verdades

E nada melhor do que sermos guerreiros amados por essa Deusa tão sedutora, e podermos dançar com ela.
Lembrei agora de um antigo mito hindu, que trata de uma divindade dançarina chamada Shiva, cujo bailado dá início e fim ao Universo. Shiva nos diz que tudo o que começa termina, o que morre vive e o que é criado precisa ser construído para ser criado novamente.
E aqui estamos nós em nossa dança, no início e no fim, quando eu destruí as esperanças de vocês em aprender Psicologia e vocês reconstruíram o meu desejo de ser professor
Ademais, os Hindus, como outras culturas, acreditam que o mundo é um sonho que foi sonhado pelas divindades, assim como eu me aproprio das palavras de João Grilo no Auto da Compadecida para dizer quem eu sou “Apenas um homem que foi sonhado por Deus” e entrego a vocês agora colegas como presente para sonhar o futuro a musica de ChicoScience: Adeus

Ah, antes de ir embora eu gostaria de contar uma piada, que me foi contada por um amigo chamado Arthur Fleck, grande palhaço e comediante, alguém como eu:
Tinha dois caras num hospício, uma noite eles decidiram que não iriam viver mais lá, e resolveram fugir. Foram até a cobertura do asilo  e viram ao lado, o telhado de um outro prédio apontando para a lua, apontando para a LIBERDADE.
 Então um dos sujeitos saltou sem problemas para o outro telhado, mas seu amigo se acovardou. Ele tinha medo de cair, sabe. O primeiro cara teve uma ideia. Ele disse:"Ei, estou com a minha lanterna, vou acendê-la sobre o vão  dos prédios e você atravessa pelo facho de luz. 
Mas o outro sacudiu a cabeça... e disse..."o quê? você acha que eu sou LOUCO? E se você apagar a luz quando eu estiver no meio do caminho"?


Resultado de imagem para A piada mortal finalResultado de imagem para final de a piada mortal

terça-feira, 21 de agosto de 2018

As três mortes de Amanda Curran




No seminário "Cinema, desejo e olhar com Stanley Kubrik foi exibido o filme "De Olhos bem fechados"  e fiz algumas compilações de fotogramas  que denotam elementos estruturais do filme, o que em semiótica chamamos de significantes: cenas em que aparece a cor vermelha, enquadramentos simétricos, trajetória de personagens. Eu postei essas fotos na comunidade do LEXPARTE no Facebook.  A rede social censurou as fotos em que aparecem mamilos e me bloqueou por três dias.
Eis as fotos:





sábado, 5 de maio de 2018

Pausa para Dostoievski



Alunos que tem boa cultura certamente tem mais facilidade com o resto. Quer dizer,uma planta pode crescer só com terra e água, mas com um bom adubo orgânico ela fica bem maior e mais viçosa.Guattari chama isso de “universos de referência”, linhas de fuga, espaços nos quais podemos colocar em perspectiva os conhecimentos teóricos e técnicos e tornar nossa experiência no mundo mais complexa e heterogênea. Dentro das minhas atividades docentes, e enfim, também daquelas que propus durante a greve, e outras tantas que estão ocorrendo no acampamento estudantil, boa parte envolve a exibição de filmes ou a leitura de alguns clássicos da literatura. Pode-se perceber que, no mundo acadêmico, um grande abismo surge entre o operário trabalhador acadêmico, e o chamado pensador intelectual. Nós, doutores, os cérebros mais treinados e capacitados da terra (?), paradoxalmente estamos perdendo nossa capacidade de pensar, pela exigência cada vez maior de produção numérica e burocrática pautada em prazos, e também pela especialização.Creio que isso é um ponto de pauta importante a ser discutido em tempos revolucionários de greve...
O operário-padrão do conhecimento deve ter seu intelecto restrito ao seu escopo de pesquisa. O resto é ócio.
Pois eu não concordo com isso. Minha idéia de educação é complexa, e principalmente na minha área, a Psicologia, quanto mais Universos e modos diferentes de pensar, mais o pensamento e as relações humanas adquirem a capacidade de se reinventar. Pois falemos de Dostoievski.
Fiodor Dostoievski (1821-1.881), escritor russo, autor de obras como Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov, O Idiota, ´é considerado um dos maiores expoentes da literatura mundial ao lado de Shakespeare, Proust, Tolstoi entre outros. Sugiro, para começar, "Notas do Subsolo" e "Memórias da casa dos Mortos" (que estou lendo agora). São baratinhos e fáceis de ler.
"Notas do Subsolo", ou dependendo do tradutor, "Devaneios do subterrâneo", "Notas do subterrâneo e por aí vai", doravante o título, me puxou para o andar de baixo, ou pelo menos mostrou o chão que está acima de mim.

O filósofo Mikhail Bakhtin construiu uma grande obra inspirada no escritor russo, considerando seus romances polifônicos e dialógicos, polifônicos pelo fato de o escritor ser uma espécie de consciência das consciências de seus personagens, que, segundo Bakhtin, adquirem independência no discurso... Dialógicos pelo fato de os personagens, alguns formadores de um discurso próprio, teórico, e que produz fissuras nos outros personagens´, e no caso do "Notas...', no próprio leitor. O livro começa com um diálogo direto do personagem, que não possui nome, com o próprio leitor, onde ele apresenta "o subsolo", ou seja, o lugar de ode ele se posiciona, sua visão de mundo, seu estado de espírito. "Sou um homem doente, sou mau", é a primeira frase do texto, e prossegue um diálogo cuja tônica é habitar o subsolo, o subterrâneo, o lugar do discurso além da moral, em que o personagem se mostra como herói como questionador da humanidade da hipocrisia, mas ao mesmo tempo se acovarda... Ele chega a dizer "Pressupomos que o homem seja inteligente, pois se ele for idiota, quem mais consideraremos inteligente?".Define o homem como um ser "bípede e ingrato", assume a postura de subsolo ainda que no final, diga que não acredita em UMA palavra que escreveu, e, na conclusão escreva as incríveis palavras: “é melhor não fazer nada! È melhor a inércia consciente!Pois, então viva o subsolo! Apesar de eu ter dito que invejo o homem normal até a minha última gota de fel, nas condições em que o vejo, não quero ser ele"...
Dostoievski é impressionante. Suas narrativas são simples, porém descrevem personagens complexos e que tem vida própria.
Em “Memórias da Casa dos Mortos”, a história é contada por um personagem que lê um diário de um detento em uma prisão na Sibéria.Neste livro dentro do livro, é descrita a rotina da cadeia, com pormenores sensíveis e cotidianos.Em meio a esse cotidiano, aparecem as vidas, pensamentos, morais, sentimentos e conflitos de cada personagem, como se eles tivessem vida. Em Dostoievski, os personagens assumem discursos e falas que são independentes da narrativa e do narrador, como se fossem vivos. Cada idiossincrasia da prisão é trabalhada com detalhes e sob a perspectiva da multiplicidade subjetiva e heterogênea dos detentos e seus modos de funcionar, o que dá ao ambiente carcerário uma idéia de multiverso: o verão, o inverno, as festas, os conflitos, as penas e seus múltiplos delitos e suas motivações, castigos, o hospital...
Sendo o livro dentro de outro, ainda há mais histórias dentro de histórias e o leitor é habilmente conduzido a dialogar e quase nos esquecemos que apenas uma pessoa as escreveu, ou, desta maneira, abre-se a possibilidade ao leitor de construir este diálogo.
E, quem sabe, não podemos usar Dostoievski como metáfora para nossos fazeres pedagógicos, e, em meio a prisões curriculares e suas rotinas sufocantes deixemos as vozes de nossos alunos dialogarem e possamos nos perder em nossas polifonias?