Não fuja da luta, covarde

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Empate

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Internet, capitalismo de rapina e a Guerra do Irã



Entrevista na íntegra concedida a jornalista  Camila Rosa, para a Folha de Londrina em 07/01/2019
  • Quais os resquícios da 2° Guerra Mundial, ou quais heranças deixadas para que se pense em uma nova Guerra;
      Resposta
No contexto de nossa conversa aqui podemos colocar que as guerras em geral possuem dois elementos: o econômico e o ideológico. Um não existe sem o outro: quem financia um exército o faz para conquistar novos territórios, obter lucro no comércio e consumo de armamentos ou angariar espólios dos vencidos enquanto aqueles que lutam no front  dificilmente arriscam suas vidas por isso, e para tanto surgem as motivações nacionalistas, religiosas ou étnicas como uma espécie de combustível.
Cientístas políticos como Eric Hobsbawn e  Zygmunt Bauman afirmam que as duas grandes guerras  Mundiais foram o verdadeiro início do século XX. A primeira guerra teve como mote ideológico um conflito nacionalista, enquanto a Segunda Guerra foi fortemente marcada por questões etnicas. Em ambas os Estados Unidos da América participou estando a um oceano de distância e mantendo seu parque industrial intocado e funcionando a pleno vapor. O que pouca gente fala é que a Segunda Guerra mundial foi fundamental para salvar a economia  que havia sido destruída pela quebra da bolsa de valores de 1929, pois um armistício  de tal proporção, além de armamentos, necessita de mantimentos, vestuário, transporte e, principalmente, comunicação, tudo isso impulsionado por desenvolvimento tecnológico. Todas as nações europeias e orientais envolvidas no conflito sofreram graves prejuizos materiais e financeiros com os bombardeios, parques industriais inteiros foram sucateados enquanto os EUA, além de tudo, deu asilo político a grandes cientistas alemães que incrementaram ainda mais sua industria bélica, entre eles os idealizadores das bombas atômicas lançadas em Hiroxima e Nagasaki.
Tanto  a crise de 1929 quanto o nazismo as revoluções comunistas da China e da Russia foram frutos de problemas da grande desigualdade social, e o mundo ocidental do pós guerra se reestruturou para evitar novas insurreições e teve início aquilo que os sociólogos chamam de "os 30 gloriosos". Sob a batuta economica e ideológica dos EUA e da Inglaterra uma parte do planeta experimentou seu apogeu de desenvolvimento industrial, tecnológico, financeiro e social. É claro que tudo foi às custas da total exploração das colônias africanas, do sudeste asiático e da America Latina, todas fornecedoras de fartas reservas de minério, petróleo, terras cultiváveis e mão de obra barata ou semi escravizada.
A grande questão atual é que todo isso está se esgotando. A sociedade humana  consumista dos séculos XX e XXI se desenvolveu através do esgotamento de recursos materiais não renováveis do planeta e da enorme ( e cada vez maior) concentração de renda. As sucessivas revoluções tecnológicas que tiveram início no século XIX, associadas com a necessidade do barateamento da mão de obra e das mercadorias tiveram como consequencia inevitável um fenômeno que inciou com força nos anos 70 e veio para ficar, e provoca hoje o pesadelo dos economistas políticos: o desemprego estrutural e a formação de uma gigantesca massa de seres humanos não mais desempregados, mas "inempregáveis", inúteis e desnecessários, sem nenhuma capacidade de venda de sua força de trabalho.
É quase unanimidade entre os cientistas políticos que se debruçam sobre as crises do capitalismo: a porção humana do planeta Terra habitada por nós está prestes a entrar em um colapso: há cada vez menos trabalho humano a ser explorado, bem como recursos naturais. Calcula-se que o PIB da produção material do MUNDO inteiro seja de 200 trilhões de dólares e o PIB financeiro, ou seja, de existência apenas virtual,seja da ordem de 1 quadrilhão. Em 2030 teremos mais de 800 milhões de seres humanos considerados supérfluos pela economia capitalista.
Um exemplo disso é a Amazon e o Google. Se entrarmos na loja virtual da livraria e adquirirmos um e-book, esta operação não terá nenhum trabalhador humano envolvido. Atualmente o Google, a maior empresa do mundo, possui  em torno de 50.000 empregados, e estima-se que em uma década será uma inteligência artificial autônoma.
O que fazer com essa enorme massa de seres humanos substituídos por máquinas?

  •  Como explicar o comportamento atual das pessoas aos supostos rumores de um 3° Guerra;
Eu cito aqui dois filósofos importantes um brasileiro e um camaronês. O brasileiro é Marildo Menegat, professor da UFRJ. Menegat, a partir do que eu disse na pergunta anterior,  afirma que capitalismo chegou em uma fase em que as questões clássicas modernas, de manutenção de uma sociedade desenvolvida, de bem estar ou de emprego não interessa mais.
Como eu disse no início da entrevista, a guerra possui componentes  e economicos associados a um combustível ideológico. Na verdade, a existência humana pode ser definida assim: nossa vida é composta por elementos materiais e concretos mas sem a linguagem como suporte simbólico jamais seríamos capazes de sequer definir o que é ser humano.
Os reais motivos dos EUA entrarem em conflito com países como Venezuela, Afeganistão e Iraque são simples e estão até no senso comum: energia e rotas comerciais. São os mesmos da Segunda Guerra porém com uma terrível novidade: resta pouco planeta para explorar e as grandes corporações que financiam a guerra  já não estão mais interessadas em manter a sociedade de consumo e o capitalismo. Segundo outro filósofo famoso, Bruno Latour, é óbvio que a negação do aquecimento global ou o terraplanismo são um disfarce, uma cortina de fumaça. O que os grandes acumuladores de capital do mundo estão fazendo é uma aposta:o que acaba primeiro, o planeta ou o capital.
Aqui recorro ao camaronês Achille Mbembe, que recentemente publicou um ensaio muito famoso no meio acadêmico chamado "Necropolítica". Em linhas gerais Mbembe considera que a era do "humanismo" iniciada na revolução francesa acabou e que todas os conflitos bélicos atuais apresentam como característica o puro e simples extermínio de sujeitos considerados desnecessários. Nos anos 70 Michel Foucault cunhou o termo "biopolítica" que seria o governo e a deminstração da vida pelo controle do estado, das grandes empresas e das ciências biológicas, estatísticas e humanas. Mbembe diz que não há mais interesse em governar e controlar as massas inempregáveis, e sim em exterminar. Para tanto basta analisar países da africa subsaariana produtores de platina, ouro, diamante ou outros metais preciosos, assim como a Síria, o Iraque e o Afeganistão:tais países hoje já não constituem mais nações autônomas e independentes e seus refugiados hoje se espalham pelo mundo todo, inclusive migrando para países também em guerra como o Brasil. Sim, eu afirmo, estamos em Guerra. Todo ano 60.000 mulheres e homemns são assaassinados no Brasil, em sua maioria jovens negras e negros que habitam zonas urbanas sem nenhuma assistência do Estado. Isso não é por acaso.
Eu repito: a parcela do planeta habitada pelo homo sapiens caminha cada vez mais para uma situação em que os 10 por cento que controlam 90 por cento da riqueza decidirão o que fazer com os 90 por cento que tem 10. Como atualmente  não há sinais de melhora,  a decisão é o exterminio até que esta maioria se insurja e o mundo mergulhe na barbárie da mesma forma que aconteceu há mil anos com o Império Romano, porém sem mais espaço habitavel no planeta.
Não é à toa que essa possível guerra tenha eclodido com o assassinato por controle remoto do líder militar de um país protagonizado por outro país e nações "civilizadas" como Alemanha e Inglaterra tenham assumido uma posição quase indiferente, assim como o comandante da polícia militar do Rio de Janeiro e seu Governador tenham considerado a morte de uma criança negra e pobre em um conflito armado urbano "ossos do ofício". 
 O mundo já vive uma Guerra mundial, e ela é contra os pobres. O que os EUA farão é apenas rapinar as últimas reservas de petróleo existentes.


Em que medida esse compartilhamento em massa de informações, nas redes sociais, afeta a vida das pessoas?
 No século XIX grandes massas migraram das zonas rurais para os grandes centros urbanos para trabalhar nas fábricas dando início a segunda revolução industrial. Nos dias  com a chamada quarta revolução tecnológica, que iniciou com a internet e hoje vive a era da chamada "governamentalidade algoritmica", é natural que os fluxos humanos fluam para onde o capital está. 
São apenas cinco grandes empresas – conhecidas como as Big Five – que se tornaram intermediárias poderosas de nossa vida digital: Apple, Google, Microsoft, Facebook e Amazon[1]. Em 2017, essas empresas passaram a ocupar as cinco primeiras posições no ranking das companhias mais valiosas do mundo, deixando para trás gigantescas corporações globais que durante décadas tinham posições de liderança como Exxon, Nestlé, Samsung, General Electric e Johnson & Johnson. Juntas, as cinco companhias valem ao redor de 3,3 trilhões de dólares (aproximadamente metade do PIB brasileiro de 2018). O atual ministro da Economia brasileiro Paulo Guedes, pretende economizar, com a reforma da previdência, 1 trilhão de REAIS em DEZ anos.
Pesquisadoras e pesquisadoras do mundo inteiro já estão estudando este fenômeno, e o chamam de "Capitalismo de Vigilância"; Somos sujeitos da linguagem e do simbólico, é isso que nos torna humanos, a realidade que vivemos é uma realidade virtual, quando temos uma dor de estômago nunca sentimos apenas a dor, já imaginamos a palavra "dor" e todas as suas significações. Nossa relação com o mundo nunca foi direta. As tecnologias apenas amplificam isso e, aliadas aos mecanismos de sedução e captura da economia e da política, hoje o mundo  humano que tem acesso a essas tecnologias está vivendo uma espécie de realidade paralela. 
O grande risco disso é justamente quando as regras do mundo virtual começam a coordenar e invadir a nossa vida subjetiva: as pessoas não mais compartilham de espaços de conversa e convivência, candidados a cargos políticos se elegem pura e simplesmente por serem youtubers ou celebridades do Twitter, informações falsas espalhadas pela rede são interpretadas como verdade (terra plana, movimentos anti vacina, etc)
Assim como Hittler conclamou a Alemanha a se unir contra o grande inimigo comum, os judeus, usando propaganda escrita e cinema, hoje os EUA usam o terrorismo  e a "autodefesa" e muitas fake news em Wtasapp, Facebook e Twitter para conquistar o apoio de bilhões de pessoas a defender um território que está a milhas de distância. Com o advento dos drones nem é mais um movimento pacifista solidário as famílias dos soldados mortos: estes serão em numero irrisório.
  
  • Qual o impacto do computador, e agora o celular, que exerce a mesma função e faz com que fiquemos conectados o dia todo, estando sempre ao alcance. 

Atualmente, o mundo comporta 4 bilhões de pessoas usando algum serviço conectado à internet, e até 2021 seremos 5 bilhões. O escândalo da Cambridge Analytica - empresa privada que combinava mineração e análise de dados com comunicação estratégica para processos eleitorais –
revelou o uso de dados de redes sociais sem autorização. Percebemos que os dados não identificados dessas redes, mais as imagens de câmeras de vigilância, GPS, buscas em plataformas como Google, Amazon, Instagram, lojas virtuais, etc. alimentam gigantescos bancos de dados e são transformados em capital e gerenciados por inteligência artificial.
O Brasil é o segundo país do planeta em tempo de conexão, em uma média de nove horas por dia por habitante, sendo que 133 milhões de brasileiros/as seguem perfis políticos nas redes sociais.
A palavra rede também guarda em si uma multiplicidade de sentidos e de inserção na esfera filosófica, tecnológica e política: podemos pensar as redes como espaço de conexões entre pessoas, como espaços de acolhimento e como aparelhos de captura.
 Na minha opinião, a única maneira de evitarmos o colapso mundial não é combatendo a tecnologia ou as grandes corporações. Estas já venceram.
O que podemos fazer é voltar a cultivar espaços de encontro, de solidariedade, fomentar outras modos de produção, de comunicação e de encontro entre pessoas

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

5 anos em V de novembro



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Virtude, Vida, Verdade, Vitória, Vingança
"Por baixo dessa mascara não existe um homem, existe uma ideia, e ideias são a prova de balas” V.

Queridos e queridas afilhados e afilhadas
Permitam que eu me apresente, sou um homem de riquezas e bom gosto, estou aqui há muito tempo, e roubei as almas e a fé de muitos homens. Prazer em conhecer vocês, esperoque saibam meu nome.
Decidi escrever esta carta em primeiro lugar como agradecimento pela homenagem e pela lembrança nesse momento tão importante da vida de vocês. Estaremos juntos naquele quadro que enfeitará o prédio da psicologia até o fim dos tempos
Em segundo lugar o mais importante: ainda estou tentando entender por que diabos vocês resolveram fazer isso...
Um de meus textos preferidos de Freud é aquele que trata do humor e das tiradas espirituosas, e de quanto é importante para rirmos de algo que façamos parte de uma mesma paroquia, que sejamos envolvidos por um enlaçamento social, ou seja, é claro que essa piada tem mais graça apenas para alguém que porventura leia essa carta e não faça parte de todo universo discursivo e relacional que compartilhamos.
De qualquer jeito, agora recorro às lembranças da minha formatura e de tantas outras até então e me dou conta de que há um certo perfil para professores homenageados: pessoas doces, queridas, suaves,que ministraram varias disciplinas ou conviveram com a turma por todo o percurso academico. Eu não me encaixo em nenhuma dessas categorias... aliás sou contra homenagens, minha frase preferida é de Marx, (Grouxo, o humorista): “eu jamais entraria para um clube que me aceitasse como sócio”. Vocês ,mais do que ninguém,sabem sou uma pessoa convencional e tampouco essa homenagem o é.
Partindo do pressuposto psicanalítico de que nossos objetos de desejo são mais da parte desejante do que da desejada, penso ser importante e até divertido interrogar: por que eu? Por que nós? Por que agora?
Deixem que eu conte para vocês como foram minhas primeiras experiências docentes. A primeirissima vez que entrei em sala de aula como professor foi quando uma professora da UFRGS foi para os Estados Unidos celebrar o casamento da filha e confiou a mim as 8 ultimas aulas de Psicologia da Comunicação para uma turma de jornalismo e RP. Não sabia absolutamente nada da matéria, mas aceitei por uma simples razão, que agora surge como tema desta carta: eu tinha um sonho. Como vocês mais do que ninguém sabem, eu sou uma pessoa que vai direto ao ponto e no primeiro encontro com a turma eu realizei um sonho antigo de dar a aula em pé em cima da mesa, igualzinho ao meu filme preferido, o qual tenho certas duvidas se é muito atual ou ultrapassado “Sociedade dos poetas mortos”
Naquela segunda feira de março de 2015 eu também entrei na sala ansioso e cheio de esperança nervosa, afinal, nunca havia ministrado História da Psicologia, e também nunca tinha encarado uma turma de primeiro ano de nosso curso.
Eu lembro como se fosse hoje daqueles 100 olhos me fuzilando ( essa piada eu contei naquele dia, lembram?) cheios de vontade de aprender, e eu, sem nenhuma ideia de ensinar. Lembro agora que eu fui orador da minha turma no ensino médio e meu discurso só não me levou a expulsão porque era o dia da formatura. Entre o fim do colégio e os primeiros anos da faculdade fiz quatro anos de teatro, Eu sempre gostei de provocar reações nos outros, e ás vezes considerava a turma como se fosse minha platéia. Eu chegava na aula com meu livro do Nietzsche embaixo do braço e quando eu resolvia falar era para desconstruir tudo o que se dizia na aula.
E é de meu filósofo preferido que retiro a lição que nos interessa aqui, que é que todo mestre só sabe daquilo que diz respeito a discípulos, o que leva o sábio Zaratustra a dizer aos seus “não me sigam, escondam-se de mim, envergonhem-se de mim”.
Vocês sabem como isso funciona, e, como eu nunca havia visto em minha vida de docente, abraçaram esse paradoxo de seguir um guru sem delegar-lhe o poder da verdade, de apostar no desejo de saber jamais satisfeito no desejo de desejar. Diz Nietzsche em um poema que “ a verdade ama os guerreiros (ou guerreiras)”, assim como Sócrates se insurgiu contra os filósofos cínicos que vendiam a verdade a dinheiro, com seu método de dúvida vertiginosa e seu aforismo “só sei que nada sei”
Mas enfim o que nos faz professores? Eu recorro a meu livro de cabeceira, que foi-me apresentado pela vela na minha escuridão, mestra, mãe, amiga que saiu de minha vida como um membro amputado: Tania Galli Fonseca. O livro é do filósofo Jacques Ranciere, “O mestre ignorante” E ali ele fala que o professor jamais deve ensinar e não há aluno que não saiba. A lição aqui é de emancipação intelectual, de Hegel: professor e aluno precisam se libertar
O conhecimento não está em lugar nenhum senão entre nós, vínculos, sentimentos, cumplicidade.
Agora, o que eu, que encontrei vocês no começo, estou aqui novamente, no fim? Por que agora?
Todo mundo sabe que uma longa noite sobre nós, nosso Estado, nosso povo, nossas famílias e nossos modos de existir.
Vivemos um tempo de guerra, e uma guerra de verdade e de Verdades

E nada melhor do que sermos guerreiros amados por essa Deusa tão sedutora, e podermos dançar com ela.
Lembrei agora de um antigo mito hindu, que trata de uma divindade dançarina chamada Shiva, cujo bailado dá início e fim ao Universo. Shiva nos diz que tudo o que começa termina, o que morre vive e o que é criado precisa ser construído para ser criado novamente.
E aqui estamos nós em nossa dança, no início e no fim, quando eu destruí as esperanças de vocês em aprender Psicologia e vocês reconstruíram o meu desejo de ser professor
Ademais, os Hindus, como outras culturas, acreditam que o mundo é um sonho que foi sonhado pelas divindades, assim como eu me aproprio das palavras de João Grilo no Auto da Compadecida para dizer quem eu sou “Apenas um homem que foi sonhado por Deus” e entrego a vocês agora colegas como presente para sonhar o futuro a musica de ChicoScience: Adeus

Ah, antes de ir embora eu gostaria de contar uma piada, que me foi contada por um amigo chamado Arthur Fleck, grande palhaço e comediante, alguém como eu:
Tinha dois caras num hospício, uma noite eles decidiram que não iriam viver mais lá, e resolveram fugir. Foram até a cobertura do asilo  e viram ao lado, o telhado de um outro prédio apontando para a lua, apontando para a LIBERDADE.
 Então um dos sujeitos saltou sem problemas para o outro telhado, mas seu amigo se acovardou. Ele tinha medo de cair, sabe. O primeiro cara teve uma ideia. Ele disse:"Ei, estou com a minha lanterna, vou acendê-la sobre o vão  dos prédios e você atravessa pelo facho de luz. 
Mas o outro sacudiu a cabeça... e disse..."o quê? você acha que eu sou LOUCO? E se você apagar a luz quando eu estiver no meio do caminho"?


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terça-feira, 21 de agosto de 2018

As três mortes de Amanda Curran




No seminário "Cinema, desejo e olhar com Stanley Kubrik foi exibido o filme "De Olhos bem fechados"  e fiz algumas compilações de fotogramas  que denotam elementos estruturais do filme, o que em semiótica chamamos de significantes: cenas em que aparece a cor vermelha, enquadramentos simétricos, trajetória de personagens. Eu postei essas fotos na comunidade do LEXPARTE no Facebook.  A rede social censurou as fotos em que aparecem mamilos e me bloqueou por três dias.
Eis as fotos:





sábado, 5 de maio de 2018

Pausa para Dostoievski



Alunos que tem boa cultura certamente tem mais facilidade com o resto. Quer dizer,uma planta pode crescer só com terra e água, mas com um bom adubo orgânico ela fica bem maior e mais viçosa.Guattari chama isso de “universos de referência”, linhas de fuga, espaços nos quais podemos colocar em perspectiva os conhecimentos teóricos e técnicos e tornar nossa experiência no mundo mais complexa e heterogênea. Dentro das minhas atividades docentes, e enfim, também daquelas que propus durante a greve, e outras tantas que estão ocorrendo no acampamento estudantil, boa parte envolve a exibição de filmes ou a leitura de alguns clássicos da literatura. Pode-se perceber que, no mundo acadêmico, um grande abismo surge entre o operário trabalhador acadêmico, e o chamado pensador intelectual. Nós, doutores, os cérebros mais treinados e capacitados da terra (?), paradoxalmente estamos perdendo nossa capacidade de pensar, pela exigência cada vez maior de produção numérica e burocrática pautada em prazos, e também pela especialização.Creio que isso é um ponto de pauta importante a ser discutido em tempos revolucionários de greve...
O operário-padrão do conhecimento deve ter seu intelecto restrito ao seu escopo de pesquisa. O resto é ócio.
Pois eu não concordo com isso. Minha idéia de educação é complexa, e principalmente na minha área, a Psicologia, quanto mais Universos e modos diferentes de pensar, mais o pensamento e as relações humanas adquirem a capacidade de se reinventar. Pois falemos de Dostoievski.
Fiodor Dostoievski (1821-1.881), escritor russo, autor de obras como Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov, O Idiota, ´é considerado um dos maiores expoentes da literatura mundial ao lado de Shakespeare, Proust, Tolstoi entre outros. Sugiro, para começar, "Notas do Subsolo" e "Memórias da casa dos Mortos" (que estou lendo agora). São baratinhos e fáceis de ler.
"Notas do Subsolo", ou dependendo do tradutor, "Devaneios do subterrâneo", "Notas do subterrâneo e por aí vai", doravante o título, me puxou para o andar de baixo, ou pelo menos mostrou o chão que está acima de mim.

O filósofo Mikhail Bakhtin construiu uma grande obra inspirada no escritor russo, considerando seus romances polifônicos e dialógicos, polifônicos pelo fato de o escritor ser uma espécie de consciência das consciências de seus personagens, que, segundo Bakhtin, adquirem independência no discurso... Dialógicos pelo fato de os personagens, alguns formadores de um discurso próprio, teórico, e que produz fissuras nos outros personagens´, e no caso do "Notas...', no próprio leitor. O livro começa com um diálogo direto do personagem, que não possui nome, com o próprio leitor, onde ele apresenta "o subsolo", ou seja, o lugar de ode ele se posiciona, sua visão de mundo, seu estado de espírito. "Sou um homem doente, sou mau", é a primeira frase do texto, e prossegue um diálogo cuja tônica é habitar o subsolo, o subterrâneo, o lugar do discurso além da moral, em que o personagem se mostra como herói como questionador da humanidade da hipocrisia, mas ao mesmo tempo se acovarda... Ele chega a dizer "Pressupomos que o homem seja inteligente, pois se ele for idiota, quem mais consideraremos inteligente?".Define o homem como um ser "bípede e ingrato", assume a postura de subsolo ainda que no final, diga que não acredita em UMA palavra que escreveu, e, na conclusão escreva as incríveis palavras: “é melhor não fazer nada! È melhor a inércia consciente!Pois, então viva o subsolo! Apesar de eu ter dito que invejo o homem normal até a minha última gota de fel, nas condições em que o vejo, não quero ser ele"...
Dostoievski é impressionante. Suas narrativas são simples, porém descrevem personagens complexos e que tem vida própria.
Em “Memórias da Casa dos Mortos”, a história é contada por um personagem que lê um diário de um detento em uma prisão na Sibéria.Neste livro dentro do livro, é descrita a rotina da cadeia, com pormenores sensíveis e cotidianos.Em meio a esse cotidiano, aparecem as vidas, pensamentos, morais, sentimentos e conflitos de cada personagem, como se eles tivessem vida. Em Dostoievski, os personagens assumem discursos e falas que são independentes da narrativa e do narrador, como se fossem vivos. Cada idiossincrasia da prisão é trabalhada com detalhes e sob a perspectiva da multiplicidade subjetiva e heterogênea dos detentos e seus modos de funcionar, o que dá ao ambiente carcerário uma idéia de multiverso: o verão, o inverno, as festas, os conflitos, as penas e seus múltiplos delitos e suas motivações, castigos, o hospital...
Sendo o livro dentro de outro, ainda há mais histórias dentro de histórias e o leitor é habilmente conduzido a dialogar e quase nos esquecemos que apenas uma pessoa as escreveu, ou, desta maneira, abre-se a possibilidade ao leitor de construir este diálogo.
E, quem sabe, não podemos usar Dostoievski como metáfora para nossos fazeres pedagógicos, e, em meio a prisões curriculares e suas rotinas sufocantes deixemos as vozes de nossos alunos dialogarem e possamos nos perder em nossas polifonias?

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Manual precário e (despretensioso) sobre como analisar e escrever sobre cinema.



  O cinema inaugura o século XX como sua arte mais representativa, por ser um fenômeno de massa e por poder integrar em si todas as outras artes: pintura, música, poesia, literatura, escultura, além, é claro de sua importante contribuição para as ciências pelos seus documentários e possibilidades de registro e transmissão nunca antes imaginados anteriormente. Para além disso, o cinema se constituiu também como forma de arte que produziu suas próprias linguagens e, desde sua criação foi objeto de estudo de diferentes áreas do conhecimento.O que interessa aqui são duas ciências muito intimamente ligadas entre si que também nasceram na aurora do século XX e que apresentaram nos últimos anos grandes contribuições aos estudos cinematográficos como ferramentas de análise para minhas pesquisas, a saber, a semiótica e a psicanálise.Pretendo aqui esboçar algumas questões importantes para quem se interessa pelo tema e quer iniciar a difícil mas prazerosa tarefa de assistir filmes e produzir algum pensamento escrito sobre eles. Aqui vão algumas considerações metodológicas , ontológicas e epistemológicas sobre a pesquisa em cinema que podem servir para a pesquisa em geral também porque há temas que são universais: autoria, método, empirismo, relações entre teoria e prática e considerações éticas, estéticas e políticas do desejo de pesquisar. Para tanto, começamos com a pergunta fundamental: quem é o autor? Aparentemente essa questão é simples, “ora é quem está aqui sentado escrevendo o texto”, mas quando olharmos mais de perto os processos de subjetivação e suas vicissitudes, a pergunta fica mais complexa.

1-Ser autor
Eu já ouvi mais de uma vez alunos da Universidade dizerem que seus professores, quando pedem trabalhos ou ensinam metodologia, costumam dar muita ênfase aos aspectos formais e normativos e os incentivam a não emitirem as suas “opiniões”, chegando, inclusive a exigir um certo número de autores citados por parágrafo do texto (tornando a citação algo obrigatório, quase preexistente a escrita). Penso que tal postura é um simulacro (ou seja, uma forma deturpada imperfeita e mal acabada) da verdadeira e importantíssima função das normas em textos “acadêmicos” ou não que é dar fluidez comunicativa ao texto e ( quando isso não for o objetivo) não confundir ou enganar o leitor. Quando extraímos uma ideia do livro de outro autor (vamos dar como exemplo Freud), se quisermos reproduzir exatamente o que ele disse, devermos indicar com algum destaque como se essa voz fosse de um gravador (citação literal) ou o resumo desta ideia com nossas “próprias palavras” sempre colocando o nome de quem disse, e aqui considero alguns autores como pessoas que se esforçaram muito para produzir conhecimento e não seria justo nos apropriarmos dele assim, além do mais é importante informar o leitor onde ele pode achar essa ideia e conhecer mais intimamente o autor, e por isso também devemos cuidar do datamento das obras. Freud morreu em 1939 mas suas obras estão até hoje sendo reeditadas, logo,se colocarmos a data original apenas o leitor dificilmente terá acesso a edição original e se colocarmos a data de 2012, por exemplo, omitiríamos importantes informações sobre o contexto histórico, epistemológico e até mesmo biográfico no qual Freud produziu os conceitos usados. Por isso, escrever um texto com as normas e citar corretamente um autor não é uma mera formalidade e sim parte fundamental e integrante do próprio conteúdo do texto em si. Mas atenção: essa regra vale apenas para quando sabemos explicitamente qual autor estamos citando, pois, afinal, uma das grandes discussões que autores como Michel Foucault, Deleuze & Guattari, e o supracitado Michel Schneider se debruçaram nos últimos tempos é justamente “o que é um autor”. Quando escrevemos um texto somos obrigados a recorrer a uma linguagem estruturada social e culturalmente, usando palavras que possuem uma história e conceitos cuja propriedade às vezes se perde no tempo e faz parte já constituinte do domínio linguageiro. Michel Schneider, na obra “Ladrões de palavras” provoca um divertido movimento conceitual ontológico: todos os textos do mundo foram produzidos por um único autor chamado humanidade ou cada texto, por mais repleto de roubos de ideias que ele contenha, a pessoa que escreve, compila, organiza e produz um texto sempre é um autor singular.
No caso da ideia mofada da academia que nos obriga por leis tácitas a considerar um autor como autoridade e citá-lo obrigatoriamente ou fazer exaustivas e enfadonhas revisões bibliográficas o filósofo francês Bruno Latour produziu uma imagem exemplar: quando um autor cita muitas “autoridades” no seu texto isso equivale a convocar uma gangue para bater no leitor solitário que precisa enfrentar uma multidão para chegar a compreender uma ideia ou um achado científico.
Veremos a seguir que a questão da autoria e da influência é um dos motivos primordiais de desenvolvermos estratégias metodológicas amparados na semiótica e na linguística na análise de obras cinematográficas, pois um cineasta, tal qual o autor de um texto, também sofre de influências e lança mão de elementos intertextuais na sua obra, porém na maioria das vezes isso não é colocado em normas acadêmicas, logo, um dos trabalhos do analista de cinema é garimpar referências, citações e influências usadas pelo diretor e os roteiristas e como elas podem compor também uma obra singular. Mas em primeiro lugar, vamos pensar um pouquinho sobre a gênese da pesquisa cinematográfica.

2-Deixar-se afetar
Afinal, o que nos convoca a pesquisar ou escrever sobre um tema? Voltando ao item anterior, eu tenho uma estimativa de que nesses mais de dez anos de docência eu possivelmente já trabalhei com uns dois mil alunos e tenho pesadelos quando imagino como seria se eu fosse um professor que os obrigasse a respeitar normas por autoridade ou fazer imensas revisões bibliográficas com o mínimo de autoria. Pelo contrário, minha interrogação é sempre a mesma: vocês por acaso pensam no leitor quando escrevem um trabalho? Será que os trabalhos acadêmicos precisam obedecer a sina do conceito de trabalho na língua portuguesa católica: um instrumento de tortura , sacrifício e punição medieval chamado “tripalium”?E eu, professor, devo ser obrigado a ler esse verdadeiro exército de instrumentos de tortura?
Toda vez que peço a meus alunos que escrevam algo, eu faço a advertência: eu gosto de ler bons textos, e bons textos são aqueles que me fazem rir, chorar, ou que me provoquem questões inusitadas, me surpreendam ou mostrem uma abordagem original do assunto. A única regra de avaliação? Que os trabalhos mostrem realmente que os alunos acompanharam as discussões em aula, que aproveitaram o tempo e o espaço caríssimos da universidade, e que, enfim, alguma coisa os afetou, produziu algo, nem que seja raiva ou tédio;
Assim também funciona com a pesquisa, e duplamente com a pesquisa em cinema: o cinema é algo que produz desejo, nos convoca nos arrebata. Eu vou ao cinema desde pequeno, na época dos cinemas de bairro ou calçada naquela época os filmes em cartaz sempre traziam algo para o debate ou a simples contemplação estética dos efeitos especiais, da tela gigante do som dolby stereo recheado de graves: efeitos especiais inusitados, histórias emocionantes, comédias, filmes chamados “cult”, violência extrema, pura diversão. Freud escreveu um texto fundamental sobre o “estranho” ou "infamiliar" ( das unheimliche),, o algo mais da experiência humana que não cabe na mera razão, algo que é do desejo em si. Mais adiante trataremos as questões da semiótica , mas adianto aqui que um de seus grandes autores, Charles Alexander Peirce, coloca que os signos, os sinais, as palavras , as imagens, as músicas, a poesia, são nosso primeiro nível de experiência com o mundo e eles representam um impacto uma marca, sendo apenas nas próximas camadas da experiência que poderemos passar aos próximos componentes analíticos, o significante e o significado. Eu jamais esquecerei da primeira vez que assisti “Laranja mecânica”, da emoção que senti com a trilha sonora e do quanto fui perturbado pela violência e pela crueldade, mas também pelos ângulos de câmera, a ironia, perfeição da fotografia e do roteiro, o que me fez discuti-lo em inúmeras rodas de amigos, ou de escrever um capítulo de minha tese sobre ele ou de utilizá-lo como material didático em várias de minhas disciplinas e sempre sentir o mesmo prazer em cada audição dos primeiros acordes de Walter Carlos entre os olhos azuis de Alex. É assim que começa.

3-Fenomenologia, semiótica e psicanálise
Diz o biólogo-fenomenólogo chileno Humberto Maturana, em sua “Ontologia da Realidade” que tudo o que é dito é dito por alguém”, frase que sintetiza a fenomenologia de Husserl e Merleau-Ponty e que Lacan associou sabiamente a ideia de realidade psíquica de Freud, afinal, nosso mundo é um “mundo vivido”, não temos acesso “direto” às coisas do mundo, no mínimo nossas estruturas cognitivas precisam estar preparadas, pois, sem isso, toda vez que víssemos uma pessoa desconhecida veríamos uma luz branca que iria tomando forma. Segundo Maturana, aquilo que apreendemos do mundo é apenas 20%, os 80 restantes foram formados desde o início de nosso desenvolvimento: noções de forma, de profundidade, presença e ausência, figura humana... a própria ideia do que é o mundo. Com o cinema é assim: cinema é ilusão e crença, acreditamos que o super -homem voa na hora que somos arrebatados pelo filme e poucos de nós pensa nos efeitos especiais, do contrário a ficção não teria graça nenhuma. E de que forma nosso ser no mundo é capaz de incorporar este universo e organizar esta experiência? Os Signos, a linguagem, as palavras, conceitos, narrativas, imagens mentais, mitos, aquilo que Freud chama de representações representativas. A psicanálise nasce de representações, Freud e Breuer estudaram o fenômeno da histeria a partir de braços, paralisados, cegueiras, delírios ou alucinações que, a partir de cadeias associativas, representavam ideias bastantes distintas das manifestas, estavam ali “escondidas” e “à mostra”ao mesmo tempo. A palavra dita, o ato falho, o chiste, a narrativa do sonho são ideias que estão no lugar de outras ideias. Assim o grande pesquisador semiótico e escritor Umberto Eco define o signo: é uma mentira, é algo que está no lugar de outro. A palavra cadeira é utilizada como instrumento mental para nos referirmos a um objeto mesmo estando a quilômetros de sua presença “concreta”.
O grande inventor da ciência semiótica e linguística foi Ferdinand de Saussure, cuja obra chegou até nós pela compilação de suas aulas por dois colegas e um aluno. È Saussure quem postula a principal teoria dicotômica do signo: o signo é composto de uma imagem icônica chamada significante e de uma unidade de sentido inscrita na linguagem chamada significado. A palavra cachorro é um signo composto por suas letras, morfemas e fonemas “cachorro” e quando a ouvimos ou lemos estamos inseridos em uma rede simbólica que nos conduz ao animal, ou a alguma ofensa ou a alguém que nos “passa o cachorro” o que significa um engodo na gíria gaúcha. A sacação de Saussure é singela em um exemplo: uma ovelha sabe que uma pessoa está falando, o som das palavras chega ao seu ouvido mas ela não é capaz de entender, pela sua incapacidade cerebral que a impossibilita de estra inserida na rede cultural dos significados. Outro exemplo é o papagaio, que aparentemente reproduz a palavra humana mas não a compreende. Ou de determinadas patologias causadas por lesões em áreas do cérebro relativas a linguagem nas quais as pessoas reconhecem as palavras mais não conseguem acessar seu sentido. O signo, para Saussure e sucedâneos, é uma bifurcação. Aqui nasce a linguistica estruturalista, os signos possuem significantes e significados que comportam uma experiência com o mundo atravessada por uma rede estruturada simbólica, cultural, social. Mas cuidado: dizer que a rede é estruturada não quer dizer que ela seja rígida. As palavras mudam de sentido ao longo do tempo, tanto no eixo sintagmático (os usos locais, singulares, regionais) ou paradigmáticos ( as mudanças históricas e sociais da língua). Para Saussure a língua é uma coisa viva.
Desta maneira, quando um cineasta pensa um roteiro, os atores, os cenários, os objetos, ângulos de câmera, transições, cenas, diálogos, e toda a composição do filme, o que ele está fazendo é trabalhar com um processo de significação cujo objetivo (ou um deles) é, através dos signos,inserir o espectador em uma rede simbólica e este pode estar mais ou menos acoplado. O trabalho de pesquisa em cinema envolve também a captura dos signos e a exploração dos diferentes sentidos daquilo que está na tela, que pode conter questões pessoais, sociais, históricas, subjetivas, filosóficas, etc que vão emergir no encontro da obra ( na sala de projeção na qual todo o aparato que produziu o filme está ausente) e a vivência do espectador. Um exemplo interessante é o filme 2001, cujo roteiro foi produzido conjuntamente por Stanley Kubrick e Arthur C. Clark. Na obra escrita temos acesso a todas os signos e seus significados, já na obra cinematográfica Kubrick trabalha com pouco texto e muitos signos codificados. O enigmático monolito e sua origem não são bem explicados no filme, ,mas quem ler o livro terá acesso ao seu significado bem restrito rede simbólica do roteiro: um artefato alienígena com um objetivo bem preciso.


4- Linguistica e psicanálise:Significantes, significados, simbólico e aí vai o método
Durante muitos anos participei de acalorados debates a respeito dos mistérios envolvendo vários elementos de “2001”, desde o significado do monolito até a profusão caótica de imagens e viagens espaciais da clássica sequencia final, e sempre as discussões eram longas e encerravam com um gosto agradável de “quero mais”, uma deliciosa incompletude. Então, há pouco mais de um ano, eu resolvi finalmente ler o livro, e a sensação de saciedade ao saber o “significado” de tudo aquilo me provocou uma certa náusea, uma sensação de ter sido reprimido, violentado. É disso que Lacan fala no seu seminário sobre a Angústia: ela não vem da perda do objeto e sim da queda deste e do encontro com o objeto real irrepresentado.
Jacques Lacan, principalmente na primeira metade dos seminários dedicou-se dar grande (e fundamental) ênfase ao fato de que Freud concebeu os principais conceitos e métodos da psicanálise a partir da FALA de seus pacientes, e é a fala, e somente ela, o material de trabalho a partir do qual temos acesso aos sintomas, aos atos falhos, chistes, delírios, alucinações e até mesmo ao sonho, afinal, todo sonho na análise é um sonho contado. Ora, como a nossa ferramenta de trabalho é a fala e o temos acesso ao inconsciente pela via da representação, nada mais adequado do que trazer a linguística e a semiótica para a turma da psicanálise, ou ao contrário. Contudo, um pequeno problema se fez presente: o inconsciente, apesar de estar ligado às representações culturais, na vida do sujeito em situação de análise, acaba por constituir uma rede linguística com características próprias, instáveis, caóticas, sujeitas às singularidades do divã e da escuta. Aqui o binarismo imediato do significante que oculta um significado simples é substituído pela escuta singular das homofonias, condensações e deslocamentos. Quando um paciente diz “Cachorro”, o analista pode pensar em um momento no animal, mas o sujeito pode estar ligado a uma trama subjetiva inconsciente e a escuta pode se direcionar para “cai, choro”, é o desejo inconsciente rompendo as redes linguísticas e as singularizando de maneira radical.
Aqui então reside uma possibilidade de método de análise e pesquisa cinematográfica baseado na linguística e suas bifurcações com a psicanálise, a partir de alguns passos ( a palavra Methodo significa caminho)

1- Arrebatamento (SIGNO). Aqui trazemos a descrição do filme e tudo aquilo que ele nos provoca.
2-Significante- os elementos perceptíveis e estruturantes do filme que são percebidos no arrebatamento: frases, palavras, roteiro, atores, cenas, música etc. Aqui trazemos vemos um monolito ocupando uma posição importante no filme
3- Significado: o que podemos extrair disso a partir dos elementos presentes na cultura geral, ou na cinematográfica, nas ciências humanas ou quaisquer outros universos de referência que nos levem a recolocar a experiência vivida do cinema em experiência reflexiva, ou teoria.Aqui buscamos no livro o significado de monolito em 2001.
4- A bifurcação-aqui também podemos acrescentar elementos singulares e subjetivos da experiência, aqui podemos pensar, imaginar e produzir infinitos sentidos para o monolito, ou nos contentarmos com nenhum.Aqui está o significante de Lacan.
È isso.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

The leftovers e o arrebatamento da realidade ou acho que vou deixar o mistério rolar



Todo mundo está se perguntando como e de onde todos vieram
Todos estão preocupados em saber para onde irão quando tudo acabar
Mas ninguém sabe ao certo
Então para mim dá tudo no mesmo
Acho que vou deixar o mistério rolar
Alguns dizem que quando você morre é para sempre
Outros que você vai voltar
Alguns dizem que descansará nos braços do salvador
Se não tiver andado em caminhos pecaminosos
Outros que eles voltarão ao jardim
Cheio de cenouras e ervilhas deliciosas
Acho que vou deixar o mistério rolar

Música de abertura da segunda temporada

14 de outubro, 140 milhões de pessoas sumiram e ninguém sabe para onde, um feto desaparece da ecografia, um policial sofre de sonambulismo e seu pai ouve vozes e é internado em um hospício, milhares de pessoas abandonam a família passam a vestir-se de branco, fumar compulsivamente e param de falar. Um homem passa a caçar cachorros e em uma cidade inteira do Texas que não perdeu nenhum habitante exige pulseira para seus visitantes pessoas vêem o futuro, ressuscitam dos mortos. Pessoas lutam para esquecer e lutam para lembrar e em algum lugar entre a Tasmânia e a Austrália um assassino que diz ser Deus lê seu livro em meio a orgia de adoradores de leões. Subitamente o ator da série “primo cruzado” aparece na trama no papel dele mesmo.O Deus assassino é devorado por um leão. O policial que sofre de insônia morre e ressuscita duas vezes e o mundo dos mortos é visto como um grande hotel onde ele tem que cumprir missões e na segunda ressurreição ele canta no karaokê a música de Simon e Garfunkel Homeward Bound. A morte é vista como um sonho.
Eu gostaria de começar meu texto sobre a série “The leftovers” com um questionamento sobre a realidade que vivemos, ou melhor, vivenciamos. Na série exibida pela HBO, há uma referência explícita a um fenômeno bíblico chamado “O grande arrebatamento”, como mostra esta passagem:
Dizemos a vocês, pela palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, certamente não precederemos os que dormem. Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que estivermos vivos, seremos arrebatados com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre. 
1 Tessalonicenses 4:15-17

No dia 14 de outubro 2 por cento da população mundial simplesmente desaparece sem deixar vestígios, assim, do nada, e o enredo trata da vida daqueles que “ficaram”, partindo do pressuposto de que os desaparecidos foram a algum lugar. Em um primeiro momento poderíamos pensar em um argumento clássico de que as pessoas viviam suas vidas normais até que o arrebatamento trouxe o caos à vida das pessoas, a clássica ideia de que um evento traumático que produziu um sintoma. Pois é aqui que a diretora e seus roteiristas literalmente arrebatam nosso senso comum.

Nosso corpo vem de uma única célula que cumpre um programa genético específico, porém em interface membranosa com um “fora” que nos penetra em diferentes modos de invaginação, desde as entradas e saídas de substâncias da célula, suas excreções até a formação de um corpo complexo dotado de pele, pulmões, sistema digestivo, visão e audição. Em muitos níveis de percepção o “dentro” e o “fora” não são distinguíveis, mas nesta “realidade” vivida existe o “dentro” e o “fora” do corpo. O ponto é que só posso escrever ou pensar nesta realidade a partir de um ponto de vista  filosófico ou científico, que são sistemas de  linguagem e esta linguagem está inscrita em um bordado de significações que pertencem a minha cultura, minha sociedade e à maneira como eu sou capaz de operá-las desde que iniciei o desenvolvimento daquilo que alguns chamam de mente, alma, psiquê, sistema cognitivo, mundo vivido, etc. Este mundo vivido colocado em pensamentos, conceitos e palavras é um mundo que posso transitar no tempo, no espaço, mas memórias, nos textos, na internet e em tudo mais da produção humana e esse trânsito existe no registro do simbólico. Estamos mergulhados no simbólico, e não foi uma tarefa fácil chegar a esse ponto partindo de uma criatura nascida apenas com células. 
No mundo dos adultos que compartilham plenamente da linguagem a realidade é plena de segurança ontológica: vivemos neste mundo, neste universo, nesta “realidade” e ela sempre foi assim, em termos individuais e coletivos, todos nós temos uma história que nos trouxe aqui e vivemos em uma vida “normal” e os eventos estranhos a esta realidade psíquica vivida são anomalias, .doenças, “traumas”. Um trauma, no cotidiano, é um evento que provoca uma ruptura em algo estável e “normal” e que produz sintoma.
Pois é justamente o oposto, o enxerto de um sistema simbólico como o que vivemos representa uma intrusão radical, uma fenda sígnica tão grande que faz com que tenhamos que recorrer de palavras e conceitos para entender nosso próprio corpo ou mesmo o ar que respiramos, e o fazemos de maneria extremamente precária, visto que o sistema simbólico mais confiável para isso, a ciência, com todas suas vicissitudes, existe a poucos séculos em uma humanidade que está aqui há milênios.
Podemos pensar, então, a realidade psíquica como um imenso buraco no qual um evento traumático não é nada além de uma intrusão do real que vem a chacoalhar as bordas e reposicionar o simbólico e reordenar um espaço subjetivo.
A realidade em si é caótica, o trauma apenas se encaixa nela. De seres falados para seres falantes todos sofremos o arrebatamento do sentido.
È isso que os habitantes das cidades americanas de Mapleton e Miracle experienciam, não a loucura, mas sim uma dança das cadeiras de todas as “loucuras” pré existentes ao grande arrebatamento.
A pergunta mais óbvia a ser feita na série é sugestivamente colocada de lado, assim como no conto da carta roubada de Poe Dupin fala de um jogo de ler nomes de países em um mapa onde as letras maiores não são vistas: o que aconteceu? Por que houve o arrebatamento ou por que aquelas pessoas específicas?
O vazio é colocado ali de propósito para que o universo do símbólico transite , ou como diria Suassuna “ao redor do buraco tudo é beira”.

O tema das grandes catástrofes é recorrente na historiografia cinematográfica desde os monstros como King Kong, Godzilla até fenômenos como incêndios, vulcões de terremotos e chega aos dias de hoje às séries como The Walking Dead com um fio condutor comum: a aparente inexorabilidade ou falta de sentido dos eventos devastadores que, por fim, aparecem ao mesmo tempo como tangenciais e mote do enredo de fundo: relações amorosas, políticas e familiares. Zizek, no filme “Guia do pervertido sobre cinema” interroga sobre Titanic: o filme narra uma história de amor sob o fundo do desastre, mas se o navio não tivesse afundado o amor dos protagonistas teria atravessado as décadas?
O que representa um grande evento singular na série “The leftovers”, repleta de personagens paradoxais, idiossincráticos e complexos, que agem e reagem de maneira tão singular na composição da trama? Talvez possamos trazer aqui uma das obras mais comentadas, elaboradas e representativas do cinema catástrofe que também mostra uma teia de relações humanas atravessada por um evento sem sentido e mortífero “Os pássaros”, onde um homem solteiro que vive com a mãe e a irmã encontra uma mulher forte e independente em uma loja de pássaros, surge uma tensão sexual entre ambos e , quando ela resolve visitá-lo na pequena baía do interior da califórnia, subitamente todos os pássaros da região atacam ferozmente a população.Não por acaso, os pássaros que ingressam violentamente na casa do protagonista se chamam merlos, em inglês "lovebirds' pássaros do amor, emissários do transbordamento da libido.
Zizek , a partir de um autor chamado Robin Wood que sugere três interpretações possíveis da trama , a cosmológica, a ecológica e a familiar. A cosmológica diz respeito ao próprio universo hitchockiano e trata do evento traumático como desvelador de uma realidade recalcada na aparente normalidade das relações familiares, a ecológica é da inevitabilidade da reação da natureza ao humano e a familiar, na qual a chave do filme está nas tensões familiares e que ataque dos pássaros representaria o elemento desagregador e discordante

Mas , afinal, pergunta Zizek, por que atacam os pássaros? Por que em “The Leftovers” as pessoas são arrebatadas? A proposta de Zizek é que retiremos o grande evento catastrófico da trama. Os pássaros sem pássaros e “The leftovers” sem o sumiço, pois ambos os eventos parecem servir de véu encobridor de toda a complexidade subterrânea, exatamente como a velha teoria do trauma. A dimensão do traumático não é do trauma, é o mundo subjetivo que é traumático, daí a passagem que freud faz pela homofonia entre o traum do trauma e o traum do sonho e, afinal, o que somos nós senão seres feitos da matéria dos sonhos, como diz Shakeaspeare, efeitos de um grande vazio que nos convoca a presença, e o Outro não será o mero contorno imaginário do apagamento que esconde um abismo?
O protagonista da série Kevin Garvey, descobre que pode morrer e rescuscitar quase como alguém que dorme e sonha, e o suposto mundo dos mortos é exatamente igual ao nosso, porém com todos seus personagens e enredos embaralhados, reconfigurados,e , da realidade do filme a realidade do mundo dos mortos á um real que traumatiza e provoca o reordenamento das peças no simbólico, por isso o sonho é a realização de um desejo, como diz Freud quando mostra as condensações e deslocamentos dos personagens oníricos:um tio vira um pai, uma mulher são três, o pai está morto e não sabe..
E como temos acesso ao sonho? Ao seu resquício, seu rascunho, seu contorno rasurado na palavra.
Na segunda e na terceira temporadas a abertura da série possui uma ironia dissonante de várias imagens de álbuns de fotografia mostrando casais, famílias, amigos, crianças e na imagem dos arrebatados só resta o contorno, afinal, não temos acesso a este outro senão pela camada acima da pele? E não é o mesmo com o sentido de uma palavra dita ou escrita?
Leftovers mostra a dialética entre lembrar e esquecer, entre a essência e a imagem de um semblante, o arrebatamento como a intrusão do real em um espaço já invadido, afinal, todos vamos desaparecer um dia para alguém e isso não fará mesmo nenhum sentido.
Termino com a citação da amiga poeta psicóloga e colega de laboratório Daniela Delias, que escreveu no Facebook sobre a série em 16 de Julho de 2017:
Qual o sentido da existência frente à morte, ao que não se controla ou explica? Lembrar? Esquecer? Matar-se? Seguir em frente? Entregar-se a deus? Sabê-lo morto? Correr mundo afora (e adentro) atrás de uma resposta? Uma discussão absolutamente fantástica sobre o real e o sonho, embalada por uma trilha musical e atuações magistrais. É preciso passar por uma primeira temporada não tão instigante até chegar neste ponto em que o nosso próprio arrebatamento torna-se inevitável.

Referência.
Zizek, Slavoj (compilador) Todo lo que usted siempre quiso saber sobre Lacan y nunca se atrevió a preguntarle a Hitchcock. Buenos Aires, Manantial, 2013.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Das Cronicas Invisiveis: A Universidade e os mortos que andam e comem cérebros..

Durante algum tempo escrevi uma coluna no Jornal Agora, de Rio Grande, chamada Crônicas Invisíveis. A ideia inicial seria uma espécie de sessão de Psicologia mas o monstro literário deformado que habita em mim converteu o espaço em algo "imprevivisível", Abaixo uma das minhas favoritas, muito contemporânea, escrita em maio de 2012
No conturbado e simbólico mês de maio, dois eventos sociais entrecruzaram-se em meus universos de referência: no dia 17 foi deflagrada nossa greve, e no Centro Cultural Santander, em Porto Alegre, aconteceu a mostra “Apocalipse Zumbi”, cuja programação consistiu em 08 filmes produzidos apenas no ano de 2011, todos eles variando sobre o mesmo tema dos “mortos-vivos”.
Mas como assim mortos-vivos?
Meus dedos percorrem o teclado, pressionam a tecla backspace, percorrem novamente as teclas...Vozes internas fazem e refazem as idéias... pensam e repensam...Penso, respiro, movo as pernas para certificar-me... De que elas estão se movendo aos meus comandos.E o que comanda os dedos, as pernas, a respiração? O cérebro, inexoravelmente é o cérebro que comanda tudo, as células nervosas, os potenciais  de membrana, as fendas sinápticas. Estou vivo porque o coração bate, o pulmão infla, o sangue irriga o cérebro e permite que o pensamento saiba que estou vivo. Prefiro, na maioria das vezes não pensar em como seria se o cérebro parasse de produzir eletricidade e o pensamento parasse...Mas, afinal, que lacuna é essa entre o espaço sináptico e a língua, a fala, o discurso,  a construção de uma teoria sobre o mundo, o conceito de vida e  de morte?
A neurociência e a psicologia dobram-se e desdobram-se em cartografar o portal desconhecido entre o corpo e o pensamento, e como no paradoxo de Zenão, quando estão a meio centímetro entre Aquiles e a Tartaruga, precisam percorrer ainda metade do caminho para chega lá.
Por enquanto, nos resta viver, e pensar sobre a vida. O pensamento, a ideia, a filosofia o conhecimento, carregam o cadáver biológico no temporalizar e espacializar da existência.
O corpo sem pensamento  e sem movimento é um cadáver, e enquanto ele não se dissolve nas redes biológicas, é mais imóvel que a mais antiga das rochas.
Agora, o que acontece quando o corpo se move sem o pensamento, sem a existência, sem a vida? Mary Sheley, em seu fantástico romance, conta a história de um cientista que costurou partes de corpos mortos e, ao alimentá-los com descargas elétricas, deu animação a um protosujeito, uma criatura ao mesmo tempo orgânica e automática
Lendas antigas vindas do continente africano versam sobre feiticeiros cujos poderes ocultos fazer os mortos emergirem da terra e caminharem sob seu controle, e a estes corpos que andam é dado o nome de Zumbis, ou Zombies.
Desde os anos 60, o cinema de Hollywood produz histórias sobre experiências científicas ou acidentes bioquímicos geradores de massas ululantes de cadáveres moventes e aterradores, que atacam populações de classe média em cenários pequenas cidades, invadem cotidianos e se reproduzem por contágio. Meu filme preferido deste gênero é “A Volta dos Mortos-Vivos”, cujos zumbis são gerados por um gás tóxico oriundo de uma arma biológica e percorrem as ruas alimentando-se de cérebros. Quase todo o roteiro consiste em pessoas vivas sendo perseguidas pelos zumbis que se multiplicam por contágio, ou seja, quando um ser vivo tem seu cérebro comido, torna-se um morto-vivo.
Nosso grande guru filosófico Slavoj Zizek assistiu a este filme, e, como bom filósofo vivo, pergunta-se: um ser vivo pertence ao mundo dos vivos, ele pensa, discursa, respira, imagina projeta universos e utopias; O cadáver é pouco mais do que uma pedra que não rola...
O morto-vivo é uma terceira categoria, que não pertence nem aos vivos nem aos mortos, que vive com apenas um objetivo: prosseguir diligentemente na tarefa de saciar uma fome paradoxal, visto que, enquanto morta não necessita de alimento. Mas afinal, na sua errância cadavérica, o morto-vivo nunca para para pensar por quê come cérebros sem precisar comê-los, ou nunca para para pensar porque nunca para para pensar.
Zizek produz a analogia dos zumbis com a das pessoas que perderam a memória por tragédias biológicas, ou as eternas vítimas das grandes catástrofes, os escravos contemporâneos ou aqueles trabalhadores que não detém a propriedade intelectual daquilo que fazem, os novos proletários. Os zumbis da contemporaneidade são protocidadãos que habitam cidades, fábricas, empresas e circulam pelas ruas, consomem, caminham, ocupam espaço, porém desprovidos da paralaxe entre o cérebro e o discurso.
O morto-vivo apenas prossegue...
Agora, o que isso tem a ver com a Universidade os dias de hoje?