Não fuja da luta, covarde

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Empate

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

"Este caminho, ou nenhum caminho":David Bowie não queria ser herói, e muito menos morrer...





David Bowie não queria ser herói. Nem por um dia, nem por um segundo. Ele também não queria morrer. Eu também não quero. Ele tinha muito medo da morte. Eu também tenho. Eu odeio pensar no assunto, evito, sério. Não sei se felizmente ou infelizmente eu me despi de toda possibilidade de ilusão de que há reencarnação, céu, inferno, Valhalla, Elísio,  fantasmas, ou quaisquer fantasias sobre uma possível existência fora desta carcaça oriunda de um universo sem sentido
Como milhões de pessoas pelo mundo e algumas dezenas de amigos que tenho no Facebook, sou fã de David Bowie desde os dez anos de idade, quando vi o filme "Labirinto" e ganhei sua trilha sonora de presente em vinil. Até os 16 anos, quando tentei aprender a tocar guitarra e meu professor ensinou "Ziggy Stardust". Aprendi a música sem nunca tê-la escutado e  fiquei  muito curioso. Mergulhei no caleidoscópio sonoro rock-pop-progressivo-acústico-estético que Bowie criou a partir do fim dos anos 60 com "Space Odditty", "The rise and fall" entre outros.
Escutar David Bowie é como ver filmes do Kubrick ou quadros de Goya ou Salvador Dali, como comer melancia gelada em um dia quente ou o sorvete da Banca 40 do mercado público.  Há um sentido tão radical na experiência que ela nunca se repete mesmo sendo a mesma. Como boa parte dos seus admiradores, nunca o vi pessoalmente, nem sequer fui a um de seus shows.Há mais de uma década que Bowie não subia no palco, após  ter um infarto, e sempre foi reservado com relação a sua vida pessoal. Mas Freud, em "Luto e melancolia" diz que  a morte de uma pessoa nos provoca uma espécie de psicose temporária, afinal, o corpo "físico" jamais teria sentido sem uma espécie de "alucinação" fantasiosa, a imagem virtual da pessoa que perdemos sem a qual seria impossível sequer pensar sobre ela, o processo de luto envolve, então uma certa coexistência psíquica entre o imaginário e a "realidade".Os ídolos são, para seus fãs, às vezes pessoas mais "reais" ou mais "íntimas" que seus próprios familiares. Quem já experimentou a companhia de uma música quando  esteve sozinho no mundo sabe disso. Quem já foi adolescente e viveu a radicalidade do rock entende melhor do que ninguém.
A notícia da morte de David foi recebida por todos com impacto, como os dinossauros que surgiram após estarem mortos a milhões de anos, tal qual uma estrela  há anos-luz de distância, David Bowie apareceu  e explodiu na esfera pública após estar morto. E justamente com um disco chamado Blackstar (estrela negra). Acordei cedo pela manhã  quando abri o Facebook já estavva lá estampada a notícia no feed da BBC. David Bowie morreu. Meu coração disparou. Fiquei triste, chorei. Como havia chorado recentemente a morte de Lemmy, do Motorhead, e de meu conterrâneo Júpiter Maçã. Até aí apenas mais da mesma tristeza.
Mas a notícia trazia ainda que Bowie lançara um disco novo três dias antes de morrer.Imediatamente fui no Itunes e baixei, não dando importância ao dinheiro. E escutei.A primeira música tem dez minutos, se chama Blackstar. Aí, em pleno verão de Forno Alegre, senti frio. Frio nos olhos, frio nos ouvidos, frio nos neurônios.
Aí o feed do facebook avisou que a música tinha um videoclip, bem como outra faixa chamada Lazarus abri o youtube  e assisti ambos.
Então parei de chorar a morte de Bowie, e passei a lamentar pela MINHA morte.
Sim, o album todo é lúgubre e tanto a faixa "Blackstar" quanto "Lazarus" são absolutamente tristes, mas Bowie é também mestre da imagem, e  a explosão estelar de sua derradeira obra é que ele grita, berra, ruge que já sabia  de sua morte iminente.. não, mais, ele já estava morto quando fez o álbum (como diz o título de uma música sua de 1997 do álbum "Earthling" : "Dead man walking).
Em ambos os vídeos o cantor aparece com o rosto vendado por uma atadura com dois botões costurados no lugar dos olhos, como diz sua música sobre a morte "My death" de 1973 "My death waits like a beggar blind" (minha morte espera como um pedinte cego") ou ao "Lepper Messiah" de Ziggy Stardust e em "Blackstar" a primeira imagem é a de um astronauta morto dentro de um traje furado e remendado com fita isolante, diante de um eclipse (estrela negra). Nem seria necessário falar das referências a "Star man" e "Space Oddity".
David Bowie fez seu último disco sabendo que ia morrer, e sua performance em seus videoclips é de alguém furioso, revoltado, em pânico, desesperado. "This way or no way" canta em  "Lazarus", visivelmente debilitado, envelhecido, sem maquiagem ou glamour, em uma cama de hospital, esquálido, exatamente como estava na vida rea, e absolutamente desesperado.
Ele tinha medo da morte, ele pensou em Lazarus porque Lazarus ressuscitou, e ele grita a letra com medo  e dor, porque quer ressuscitar também.
Eu penso assim, porque também vou morrer, todos vamos morrer, por mais  longa e próspera que seja nossa vida, um dia vamos morrer, e não há lugar para ir, apenas neurônios mortos  e nenhum pensamento, nem nada, porque o nada é ainda pensável, Diz Lacan que a morte não existe, ela é apenas crença. Quando penso em morte penso apenas em pânico.
Diz Bowie em um trecho melodioso de "Black star" atravessado por um  chorus dissonante e incômodo:
"I can’t answer why (I’m a blackstar)
Just go with me (I’m not a filmstar)
I’m-a take you home (I’m a blackstar)
Take your passport and shoes (I’m not a popstar)
And your sedatives, boo (I’m a blackstar)
You’re a flash in the pan (I’m not a marvel star)
I’m the great I am (I’m a blackstar)"

No chorus dissonante Bowie diz "eu não sou uma estrela de cinema, eu não sou um popstar, eu não sou uma estrela maravilhosa, eu sou uma estrela negra"
E seu último disco tem na capa apenas uma estrela negra  geométrica  e nada mais.
E Bowie certamente estava cagando e andando para o fato de ter entrado para história, para a eternidade dos ídolos do rock ou por estar vivo em nossas memórias.
Ele não queria morrer.

2 comentários:

  1. Parabéns pela reflexão! Bowie extrapola os limites (do mercado, do que é ser popular) de novo ao falar do abismo da existência, da luz interna chamuscada, ferida, apagada pela existência, desta angústia que permeia os andarilhos desta esfera de rocha no meio do vácuo. Pink Floyd tocou na loucura da existência num aspecto mais social do que íntimo. Bowie põe no prato da música popular o tema de transcendência de forma pessoal (o livro, os três crucificados, a vela solitária, a morte, ...). Isto é inusitado! Inclusive, falando da identidade ou a tentativa de dar algum sentido à identidade (sou isto e não aquilo). Campbell já falava que a sociedade moderna não tem mitos que possam apaziguar estas angústias como os gregos e outros tinham. Não temos estórias ou narrativas, temos ícones, imagens, sons, ou seja, fragmentos de uma narrativa... talvez estamos construindo, tecendo estes mitos. Antigamente, os velórios eram realizados na residência do morto...

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  2. Institucionalizamos a morte, afastamos-a do cotidiano, alienando-a da nossa identidade.

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