Não fuja da luta, covarde

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Empate

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Blade Runner e o apetite do Olhar


Bueno, lá vou eu...se contém spoiler? Azar...
Posso me sentir sob o olhar de alguém cujos olhos não vejo, nem sequer vislumbro. Basta apenas que alguma coisa me indique que outros podem estar ali. Essa janela , se estiver um pouco escuro e eu tiver razões para pensar que alguém estiver atrás dela, é imediatamente um olhar” Jacques Lacan, Seminário 11

Eu conheço você, eu projetei seus olhos”
Você não imagina as coisas que eu vi com SEUS olhos”
O diálogo acima pertence a uma cena de Blade Runner em que os Replicantes encontram o engenheiro geneticista da corporação Tyrell e é uma entre tantas outras que enfatizam as complexas relações do olho, da visão e do olhar presentes na narrativa de Riddley Scott: os olhos artificiais, o olho da coruja, a iluminação que desnuda as pupilas dos personagens, Darryl Hannah usando tinta spray como maquiagem, e , é claro os belos olhos azuis de Rutger Hauer quando relata ao perplexo e onipotente Deckard as maravilhas que viu em sua curta vida, que encerra “lágrimas na chuva”.
Para quem leu o livro de Phillip K. Dick a obra de Riddley Scott é algo absolutamente estranho, pois além de todas as mudanças no caráter dos personagens e na prórpia essência da história, o diretor produziu uma obra ciematográfica que priorizou absolutamente os aspectos sensoriais do cinema.
A narrativa e o roteiro são simples, a discussão a respeito de humanos e máquinas já havia sido feita em outros filmes (em 2001 de Kubrik e Clarke e até mesmo no Alien do próprio Scott).
O verdadeiro impacto de Blade Runner está em condensar o apetite do Olhar, distinto do Ver como percebe Lacan quando evoca a fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty: a visão não é mero atributo dos raios de luz que atingem o olho ou do mero processamento de informação. Há algo para além da visão que implica no desejo alienado ao desejo do Outro, “via-me vendo-me” diz Lacan, inagurando o conceito de Pulsão escópica. Ora, no cinema, diz Christian Metz, há muito mais eventos que acontecem “atrás” das câmeras que podem durar anos e que são exibidos ao espectador em algumas poucas horas em uma sala escura, gerando o paradoxo: nada acontece no filme quando os atores estão presentes, e tudo acontece, a explosão do gozo filmíco se dá justamente quando os atores já não estão mais lá, e nos prendemos ao enredo, a luz, ao som, a voz...
Blade Runner de Riddley Scott, como diz Zizek do próprio cinema, nos diz o que devemos desejar, nos inscreve escandalosamente no desejo de desejar, nos jogos de luz e sombra, na música hipnótica de Vangelis, no absoluto pesadelo de uma cidade infinita em um planeta morto.
Pois Blade Runner 2049 é tudo isso acompanhado de um jorro pulsional libertado de 30 anos de latência, mas que se atualiza dialeticamente ao ano de 2017, a data exata do nascimento dos andróides do filme antigo.
Novamente é trazido um enredo simples e singelo, comparado ao turbilhão obsessivo de filmes, séries, mangás, quadrinhos e toda sorte de tecnologia que explora as relações de humanos-máquinas.
O que o diretor Denis Villeneuve nos traz em seu filme é novamente um objeto sublime que desperta o desejo no Olha: os cenários são grandiosos e belíssimos, os efeitos sonoros e a violência poética de um planeta destruído e renegado ao lixo provocam um encontro angustiante com nosso objeto mais paradoxal de desejo: a morte, não apenas como o fim da vida, mas como a morte do humano.
O que senti ao ver, ouvir, ao sentir os tremores no chão da sala de cinema foi puro desespero, como se meus olhos fossem furados e eu ficasse cego como o personagem Wallace, e, a partir do pesadelo da distopia a narrativa encerra com a utopia da morte tranquila sob o som de Vangelis enquanto o taciturno Deckard vislumbra a utopia no olhar de sua filha.

Talvez o que Deckard tenha transmitido a seu “filho” Joe seja o processo de superar o imaginário de ser ou não ser replicante ou ser humano para inscrever-se na ordem simbólica de ser sujeito, de um significante para outro.
Nesse momento 30 anos da minha vida de amor ao cinema se misturaram como lágrimas na chuva.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Dunkirk: o mundo já acabou e somos felizes




"Dunkirk", mais recente filme do diretor Christopher Nolan, é a evidência estética mais apavorante de uma verdade tão grande que somos incapazes de percebê-la: vivemos em um mundo que já acabou, e que estamos usufruindo apenas dos momentos finais da total aniquilação.
O historiador Eric Hobsbawn deu o título de seu livro "A Era dos extremos" por considerar  o que ele chama de "breve século XX" (que, segundo ele, ´breve porque teria começado em 1914 e terminado em 1989) o período de maiores avanços humanos e tecnológicos e também do de maiores genocídios de nossa história. Segundo o autor, as duas grandes guerras foram os primeiros conflitos em escala global e bateram recordes de civis e solados mortos, e na violação de inúmeros códigos de guerra até então respeitados no chamado mundo civilizado.  Um trecho de sua obra
"As maiores crueldades  de nosso século foram as crueldades impessoais decididas à distância, de sistema e rotina, sobretudo quando podiam ser justificadas como lamentáveis necessidades operacionais. Assim o mundo acostumou-se à expulsão e matança compulsórias em escala astronômica,  fenômenos tão conhecidos  que foi preciso inventar palavras para eles: " sem Estado" "apátridas" e "genocídio".
Nós, habitantes da bolha ontológica do séxulo XXI, abrimos livros de história e lemos palavras silenciosas e frias, ou acessamos documentários ou filmes inodoros que mostram  o moedor planetário de carne em um período de 30 anos : holocausto judeu, massacre armênio, campos de concentração alemães na polônia e japoneses na Manchúria,  duas bombas nucleares no japão, bombardeios de Napalm, submarinos, canibalismo e congelamento no front Russos. Hitler, Mussolini, Stalin e a indústria bélica americana ganhando status de motor da economia...
Nós não sabemos de nada...
 Quando entre na sala IMAX e já nos primeiros segundos de Dunkirk meu coração disparou junto com um tiro de fuzil que estourou meus tímpanos, que a câmera veloz com lentes profundas percorreu cenários   de tristeza cinzenta, desamparo, medo solidão...Milhares de jovens em fila na praia, encurralados pelos inimigos invisíveis, sendo bombardeados com intermitência,  ganhando esperanças vãs em navios que logo são afundados. Meninos sem vergonha de ter medo e muito distantes dos heróis corajosos... Nolan não dá identidade a seus personagens, pouco sabemos deles, um nome, um sobrenome,  um olhar... O espectador sobrevoa a ação e seus vínculos não são com os personagens... não, não com eles... e sim com a água gelada que penetra seus pulmões, o fogo, o ruído ensurdecedor das bombas.
França e Inglaterra unidas combatiam Hitler que encurralou as tropas na cidade portuária de Dunkerke, e Churchill  organizou o maior resgate de soldados que seu viu em todas as guerras.. Uns dizem que Hitler vacilou,  outros que permitiu a escapada pois ainda pensava em negociar com os ingleses uma aliança...
Mas isso não é verdade, é história.
A verdade é o que todos vemos no mundo atual: morte, medo, desespero que pouco entendem de países, logística... Países são lógicas abstratas. Jovens armados sob a mira de torpedos, granadas e metralhadoras são apenas carne explodindo, e fugindo, e sentindo....
"Dunkirk" não é mais cinema.  Eu nem sei o que mais é.
Só sei que  no nascimento do breve século XX um homem pode escrever sobre a canalhice tardia de nós, observadores da cínica história, herdeiros de um planeta morto, nós, os felizes.
"“Nós inventamos a felicidade” – dizem os últimos homens, e piscam o olho.
Eles deixaram as regiões onde era duro viver: pois necessita-se de calor. Cada qual ainda ama o vizinho e nele se esfrega: pois necessita-se de calor.
Adoecer e desconfiar é visto como pecado por eles: anda-se com toda a atenção. Um tolo, quem ainda tropeça em pedras ou homens!
Um pouco de veneno de quando em quando: isso gera sonhos agradáveis. E muito veneno, por fim, para um agradável morrer.
Ainda se trabalha, pois trabalho é distração. Mas cuida-se para que a distração não canse.
Ninguém mais se torna rico ou pobre: ambas as coisas são árduas. Quem deseja ainda governar?
Quem deseja ainda obedecer? Ambas as coisas são árduas.
Nenhum pastor e um só rebanho! Cada um quer o mesmo, cada um é igual: quem sente de outro modo vai voluntariamente para o hospício.
“Outrora o mundo inteiro era doido” – dizem os mais refinados, e piscam o olho.
São inteligentes e sabem tudo o que ocorreu: então sua zombaria não tem fim. Ainda brigam, mas logo se reconciliam – de outro modo, estraga-se o estômago.
Têm seu pequeno prazer do dia e seu pequeno prazer da noite: mas respeitam a saúde.
“Nós inventamos a felicidade” – dizem os últimos homens, e piscam o olho'
Nietzsche, Assim falou Zaratustra



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A Democracia dos Campeões

Sou um frequentador apaixonado do centro de Porto Alegre ,que hoje os eufemismos da gentrificação chamam de "centro histórico" algo que não é centro (fica na beira do rio) e não é o único lugar "histórico" de minha cidade. A ironia é um apanágio fundante gaúcho, e , por ela, nunca entrei em um de meus lugares preferidos da cidade: uma loja de troféus da Galeria Chaves. Eu passo em frente a loja quando quero acesso rápido da Andradas ao Mercado Público e sempre fico preso aos mesmos devaneios de como seria entrar ali e comprar um troféu para mim mesmo;Cheguei até a rascunhar em meus pensamentos o roteiro de um curta-metragem no qual um sujeito desiludido com a vida encontraria a solução definitiva para sua melancolia comprando uma medalha, uma taça ou uma estatueta dourada.
Pensei até no título "Auto estima: felicidade em três parcelas".
Mas desde ontem resolvi mudar o título para "Democracia brasileira como eu me lembro".
Ora, é claro que é um grande delírio pensar que eu seria um campeão comprando um troféu, afinal, para ganhar algo é preciso merecer: escrever alguma obra relevante, vencer um campeonato, enfim, destacar-se em alguma competição ou concorrência, fazer por merecer, conquistar, galgar degraus...
Quando os parlamentares brasileiros decidiram que esse país seria uma democracia a Assembléia Constituinte se reuniu e elaborou um dos documentos mais complexos e abrangentes da história brasileira, a Constituição de 1988, que instalou no Brasil um imenso software de democracia a ser utilizado por milhões de usuários que mal sabiam ligar seus computadores na tomada, ou retomando a metáfora do troféu, entraram em um campeonato no qual não sabiam nem as regras de inscrição.
Desde Fernando Collor de Mello a democracia Brasileira foi descobrindo as regras com o campeonato em andamento: de um lado a população e os movimentos sociais lutando pelas garantias de direitos e do outro os verdadeiros donos do país, as velhas capitanias hereditárias. 
Lembro do filme "Carruagens de fogo", sobre os atletas que disputaram a primeira Olimpíada da era moderna, sem saber exatamente o que era essa competição e acreditavam na máxima do barão de Coupertain "o que interessa é competir".
Nas Olimpíadas de hoje há pouco espaço para a surpresa, o amadorismo, os grandes heróis. O jogo é jogado estritamente pelas regras, pelo preparo, pelo inexorável poder econômico das nações. 
Assim como na política. 
Os profissionais da política agora dominam as regras do jogo e ganham todos os troféus, e descobrimos os poderes ilimitados da democracia capitalista: crimes de corrupção são julgados politicamente, o presidente indica ministros do supremo que irão julgá-lo e estes mesmos são sabatinados pelo congresso nacional, que decide se o presidente pode sofrer impeachment.
Sim, meus amigos, o cristianismo dominou o mundo por dois mil anos com um livro que foi lido por 10 por cento dos cristãos.
O que vimos ontem foi o exercício pleno da democracia, por quem aprendeu a ler o regulamento da competição.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Proposta de Minicurso na ABRAPSO:Violência, ideologia e mídia no contemporâneo

A violência e suas distintas formas de mal-estar é uma das grandes expressões significantes do contemporâneo. A palavra violência em suas concepções linguageiras é inaugurada do prefixo ambivalente “vis”, em latim “impulso vital”, virilidade, intensidade. Na entrada anfiteatro Flaviano, chamado séculos depois de “Coliseu” estavam fixadas placas que diziam “violentia” referindo-se ao entretenimento preferido do Império: o espetaculo sangrento de cristãos, judeus ou condenados se degladiarem até a morte ou serem estripados for leões famintos. A violência, pois, desde um passado milenar está inscrita em um simbólico sangrento e paradoxal, constituinte da cultura humana. Entre a sociedadade patriarcal dos romanos, o incesto, o estupro e o cárcere privado de mulheres eram constituintes “socialmente aceitos” e legitimados na estrutura social.

Slavoj Zizek em um documentário chamado “A realidade do virtual”i chama atenção para a relação entre a teoria da Relatividade de Einstein e a revisão da teoria do trauma de Freud. Einstein imaginava inicialmente que o espaço era plano e que a matéria provocaria uma curvatura geradora da própria gravidade. Posteriormente, o físico alemão percebeu que não era a matéria que curvava o espaço, ele já era curvo.No emblemático caso Caso do Homem dos Lobos Freud percebeu que o menino havia presenciado a cena do coitus a tergo, porém ela tornou-se traumática anos depois, ou seja, não é o trauma que provoca um rompimento no psiquismo e sim vem a condensar e deslocar afetos primordiais já existentes.

A violência em nossa cultura não é um trauma que irrompe com uma susposta ordem pacífica, e sim a paz é uma ilusão sintomática que sustenta um real aterrorizante gerador de mal-estar. Após vivenciar os horrores da primeira guerra mundial, e em pleno interstício entre-guerras no qual se respirava a ascenção do nazi-fascismo e o recrudescimento do anti-semitisno Freud parte da metapsicologia para dedicar-se pensar as interfaces e dobras entre o inconsciente e a sociedade, culminando na obra “Mal- estar na cultura” em alemão “Das unbehagen in der kultur”. Uma de suas primeiras traduções para o inglês ganhou o título de “Civilizations em their discontents”, gerando uma polissemia de termos entre “desconforto”, “mal-estar”, “desamparo”, “cultura”, “civilização”. A obra da seqüencia a “Além do princípio do prazer”, “Psicologia das massas e a análise do eu”, “Totem e tabu” e “O futuro de uma ilusão”, e o que podemos extrair de tais obras é que o Humano guarda resquícios de suas origens primitivas (primatas) e que o papel imaginado da Ciência, da Culura e da Religião como civilizadores ou subimadores dos impulsos agressivos e destruidores não só fracassa parcialmente como produz, paradoxalmente, mais violência e destruição. Os seres humanos experimentam impulsos tanáticos e eróticos , amor e ódio entrelaçam-se em sadismo e masoquismo, e os desejos de dominação submisssão produzem uma sociedade pós- traumática que, na busca pelo prazer só encontra a infelicidade.
As intuições visionárias de Freud de“Totem e tabu” e do “Mal Estar na Cultura” encontraram ressonâncias e desdobramentos nos trabalhos mais recentes de observação de comportamentos gregários e violentos nas outras quatro espécies de grandes primatas (chimpanzés, orangotangos, gorilas e bonobos) e nas chamadas sociedades primitivas sobreviventes ao extermínio. Os estudos de Franz de Waaal e Richard Wranghan e Dale Peterson lançaram uma luz sobre os terríveis comportamentos homicidas infanticidas e estupradores das comunidades de Chimpanzés do Zaire (que outrora eram considerados seres pacíficos) gerados pela dominação masculina e o cio que é quando a fêmea entra em período fértil os machos são inexoravelmente atraídos por seus odores e entram em disputas físicas para quem a estupra e transfere seu material genético em primeiro lugar.As observações destes cientistas dos Chimpanzés levaram a elaboração da teoria do “Macho demoníaco” e foram comparados com estudos em comunidades humanas primitivas que concluíram que não há cultura sem estupro, infanticído e homicídio.Contudo, as pesquisas também levaram a descoberta do “primata cordial” quase gêmeo genético dos chimpanzés chamado de macaco bonobo. Os bonobos eliminaram o cio de sua cadeia evolutiva, juntamente com a dominância masculina, o estupro, o homicidio e o assassinato de filhotes, constituindo comunidades sexualmente liberais, feministas e de amor livre.
Não é difícil imaginar que os estudos em primatologia colocaram o Homo Sapiens em um ponto médio entre o chimpanzé e o bonobo. Somos criaturas extremamente violentas, porém não possúimos o cio, guardamos resquícios de ambas as espécies o que poderia ser escrito nas duas faces de uma fita de Moebius1:as fêmeas humanas, liberadas do cio, poderiam ser todas sexualmente liberadas, bem como os machos não se sentiriam impelidos a violenta-las, porém, o que acontece é o Mal-Estar: o estupro e o machismo são elevados a um nível de requinte e perversidade no Homo Sapiens jamais imaginad--o pela inteligência prática e imediata de nossos ancestrais; Cultura gera selvageria.
É o caso exemplar e paradoxal do Austríaco Josef Fritzl

Nascido na Áustria, Josef Fritzl era visto pelos vizinhos e pela esposa como um trabalhador, pai zeloso e exemplar, quie após o desgostoo com o fato sua filha Elizabeth ter fugido de casa e se juntado a uma seita, Fritzl, com a aceitação do Serviço Social austríaco adotara três filhos que foram colocados na porta de sua casa. Em 2008 a verdade veio à tona: Elizabeth tentara fugir de casa após o pai tentar abusá-la recorrentemente, e Fritzl a trancou no porão de casa e a manteve presa no escuro por 24 anos estuprando-a recorrentemente e gerando 7 filhos, um dos quais morreu no parto três foram aqueles adotados oficialmente e criados por ele e a esposa e outros três ficaram com Elizabeth no cativeiro.
Em nosso imaginário popular é muito recorrente a fantasia de que o estupro é um crime fortuito protagonizado por um agressor desconhecido a uma vítima aleatória e que experimenta a ideia original de trauma: uma pessoa normal que sofrea a agressão bárbara de um desconhecido ameaçador e experimenta os sintomas adequados ao trauma. Relatos policiais e de trabalhadores da saúde que lidam diretamente com a violência sexual mostram o oposto: o abuso sexual é um crime recorrente em ambiente privadoe que os agressores, em sua grande maioria são conhecidos ou parentes das vítimas: avôs, tios, vizinhos, amigos da família, pais ou padrastos que obtém o concentimento das vítimas por sedução material, ameaças, intimidação, barganha. Na metáfora usada por Zizek, o espaço social e subjetivo de uma vítima de estupro já é traumático e o ato em si é mais consequencia do que causa.
Josef Fritzel é um caso exemplar e radical:
“O caso de Fritzl valida o trocadilho de Lacan entre perversão e père-versão, uma versão do pai. Não é fundamental notar que o apartamento subterrâneo materializa uma fantasia ideológico-libidinal muito precisa, uma versão extrema do prazer-dominação-pai? Um dos lemas de Maio de 1968 era “todo poder à imaginação”; nesse sentido, Fritzl também é um filho de 1968 que realizou impiedosamente sua fantasia. Por isso, é enganoso, e impiedosamente errado, chamar Fritzl de “inumano”; no mínimo, para usar o o título de Nietzsche, ele poderia ser chamado de humano, demasiado humano.” Não admira que Fritzl se queixasse de que sua vida foi arruinada pela descoberta de sua família secreta. O que torna seu reinado tão medonho é justamente que seu exercício de poder e seu usufruit da filha não eram apenas um ato frio de exploração , mas eram acompanhados de uma justificativa ideológico-familiar (ele fez o que todo pai deveria fazer, proteger os filhos das drogas e de outros perigos do mundo) além de demonstrações ocasionais de compaixão (ele levou a filha doente ao hospital, por exemplo). Esses atos não foram brechas de humanidade calorosa em uma armadura de frieza e crueldade, mas partes da mesma atitude protetora que o levou a prender e violentar seus filhos. (ZIZEK, 2014, p.58)

Em 2014 cineasta austríaco Ulrich Seidl, inspirado em Fritzl e em outro sequestrador hediondo compatriota chamado Wolfgang Prikopil, que em 1998 sequestrou Natascha Kampush e a manteve em cativeiro sob estupros recorrentes por 8 anos, produziu documentário “Do porão”cuja proposta é desvelar os as pequenas perversões s nos porões das famílias austríacas de classe-média: nazismo, sado-masoquismo, misoginia, culto as armas, sodomia.
Seidl trabalha com uma metodologia não dicotômica entre documentário e ficção, os personagens e suas peculiaridades são reais mas as performances cênicas são, segundo ele, “ficcionalizadas”, poderíamos colocar aqui realidade e ficção nos lados de uma fita de moebius. Três histórias contadas no filme chamam a atenção.
1-um casal sado-masoquista em que a mulher é extremamente amorosa, rigida e dominadora de um marido gigante porém dócil e submisso. Ela o obriga a andar nu pela casa com pesos nos testiculos e a limpar o banheiro com a língua.Quando o amor e a dominação são muito fortes, eles entram no porão onde estão todos os instrumentos de tortura e prazer, onde Seidl filma uma sessão em que o marido é suspenso no ar pelo pênis.
2- Um senhor de idade reune sua bandinha germanica para comer, beber, tocar e jogar conversa fora em um porão repleto de relíquias nazistas e com um imenso quadro de Hitler na parede.
3- Uma mulher nua e amarrada por várias cordas de “boundagismo” conta a história de seu casamento e de como o marido alcoolista a espancava até o ponto de ela um dia enfiar uma faca nas suas costas e fugir com a filha tornar-se adepta do sadomasoquismo. Seu primeior dominador a fez experimentar todas as formas de dor e prazer até que um dia exagerou e a obrigou a ir para o hospital toda ensanguentada. Hoje ela pratica com um novo mestre chamado Walter e trabalha para a Caritas ajudando as mulheres vitimas de violência.Seidl mostra uma sessão de dominação na qual o mestre Walter bate no traseiro dela com um chicote, e logo em seguida dá continuidade ao depoimento no qual ela diz que não gosta de homens machistas porém para ela os homens precisam ser fortes e dominadores. 
Neste caso podemos colocar o caso desta mulher e sua relação da violência e dor nos lados de uma fita de papel quando ela era espancada pelo marido, proceder a dobra de moebius quando ela descobre o sadomasoquismo e cortar a fita duas vezes ao meio, provocando primeiro uma torção e seguindo a produção de dois anéis entrelaçados.
A violência aqui mais uma vez não constitui em um evento traumático na vida de uma vítima, e sim um espaço curvado e caótico no qual o sujeito escava seu desejo e produz dobramentos e metamorfoses. O mal-estar aqui não está na violência física em si porque esta é reelaborada e ressignificada, encaixando-se em um sinthoma (diferente de um sintomal queixoso). Nos dois casos anteriores o impacto visual de um homem limpar um banheiro com a língua ou ser suspenso no ar pelo seu pênis é muito mais forte do que o quadro de Hitler como pano de fundo para o banquete de simpáticos cidadãos austríacos.
Aqui, além da ideia de um sujeito pós-traumático vemos evidenciadas as sínteses de Zizek sobre os tipos de manifestação da violência: estrutural, subjetiva e simbólica.
No caso da bandinha neonazista temos uma estrutura social de antisemitismo e culto ao Holocausto obscurecidas pela simpatia e a diversão, enquanto no casal sadomasoquista violência provoca no especctador muito mais impacto estético e moral. No caso da mulher amarrada a trajetória do sujeito é complexificada por uma violência física que dobra e desdobra seus sentidos: ser espancada e dominada sem consentimento e com um atravessamento machista, ser espancada e dominada com uma dose excessiva de libido e ser dominada espancada com consentimento e regras bem estabelecidas e uma dialética entre dominador e dominado.
A cultura é geradora de mal-estar e paradoxos entre a busca pelo prazer, a felicidade e a dor em um mundo caótico de sujeitos desejantes.Nosso minucurso pretende fomentar o debate e mostrar a produção do LEXPARTE (Laboratório de Extensão e Pesquisa em Psicanálise e Arte) da FURG

terça-feira, 18 de abril de 2017

13 Reasons Why HANNAH não existe


Hannah, um nome palindrômico, ou seja, tanto faz se o lemos da direita para esquerda ou da esquerda para direita, tanto faz  o que é causa ou efeito, ela  apenas nos pede para escutar,   e deixa 07 fitas K7 com 13 lados gravados e enfatiza  que não usa MP3, Youtube, ou qualquer outra ferramenta tecnológica porque  Hannah está morta, não pode mais falar, como todos nós quando  deitamos no divã e nos despimos de nosso corpo  que simplesmente vive o mundo e o matamos para falar sobre... sobre as precariedades deste mínimo eu que circula fora do tempo do Titã Cronos, aquele que limita a todos nós. Para que a fala seja plena o sujeito cai, o espaço cai Hannah não está mais aqui) , a vida cai. O sujeito-objeto cai. O tempo cai.

Tempo de diagnosticar Hannah como deprimida, suicida, psicótica, surtada, perversa, vingativa e de culpá-la de todos os males da humanidade, afinal ela não existe... Ninguém se perguntou porque tudo acontece com ela, assim como a Grace  de "Dogville" todas as formas de abuso e todos os males da humanidade caíram sobre Hannah Baker em 13 fitas, 12 apóstolos e um Cristo. E seu amigo mais fiel a negou por três vezes...

Modernidade, pós modernidade e a subjetividade em rede

Somos modernos, contemporâneos ou pós-modernos? A expressão “moderno”, circunscrita ao terreno das artes, confunde-se com a Semana de Arte Moderna, e invoca personagens como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Anita Malfatti, e etc. Todos estudamos a semana de 1922 como um marco do modernismo no Brasil, e tal corrente artística e literária, inspirada pelo clima europeu da época, propunha-se a romper com padrões formais da arte, da literatura, da poesia.
E, talvez, seja este zeitgeist modernista que tenha construído a rede de significados que permeia o uso corriqueiro da palavra “moderno”, que significa o novo, o contemporâneo, que se confunde com o conceito estatístico de “moda”, que é a repetição de um mesmo fato, roupa ou tendência. Uma pessoa moderna costuma trajar-se de acordo com as tendências de seu tempo de seu contexto, de sua cidade, e ela deixa de sê-lo no momento em que não acompanha esse ritmo de intensas mudanças. Aquilo que é moderno não necessariamente está preso no tempo e no espaço, porque a moda pode ser “retrô”, a moda pode ser vestir-se com acessórios “das nossas avós” adquiridos em briques e brechós. Desta maneira, o suco corriqueiro da expressão “ser moderno” confunde com ser contemporâneo, ou “estar alinhado”.
Nas ciências sociais e na filosofia, a idéia de modernidade apresenta-se de uma forma mais restrita a um período no tempo e no espaço e a um determinado modus operandi daquilo que chamamos de “sociedade moderna”, ou como diz um grande pensador da modernidade, o sociólogo inglês Anthony Giddens:
“O que é modernidade? Como uma primeira aproximação, digamos simplesmente o seguinte :modernidade refere-se a estilo, costume de vida e ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência” (Giddens 1991)

Giddens observa a modernidade como um e conjunto de relações econômicas e sociais que surgiram com o iluminismo, a democracia e o fortalecimento do estados nacionais, que teriam proporcionado aquilo que Boaventura Sousa Santos (2000) considera o casamento do Estado nacional capitalista e da ciência moderna. Este casamento foi bastante acelerado pela Revolução Industrial e científica, em especial nos séculos XVII e XIX. Giddens situa a modernidade como o advento de uma sociedade pós-tradicional, pela transformação nas relações sociais, nos laços comunitários e de parentesco, no esquadrinhamento do tempo e do espaço. O tempo é o tempo da evolução científica e tecnológica, o espaço é o espaço das cidades. As instituições modernas, ou disciplinares, como diz Foucault, vão predominar nos modos de existência. O Homem Moderno mede seu tempo pelas horas de trabalho e de lazer, a criança moderna passa a maior parte do seu tempo na escola, os doentes modernos submetem-se aos médicos e hospitais.
A própria sociologia é uma ciência moderna, pro ser fundamental estudarmos os mecanismos aos quais nossas relações de tempo, espaço, trabalho e subjetividade estão submetidas. Para um grande sistema moderno, é necessário construirr um agrande teoria que o explique, como as leis da gravitação de Newton impulsionaram a revolução industrial tecnológica, as grandes teorias de Marx, Weber, Durkheim e Parsons impulisionaram a revolução industrial das ciências humanas.
É o Estado moderno que organiza, que faz o tempo correr que cura as doenças e aplaca os conflitos. No entanto, as grandes guerras do século XX e a produção em massa de pobreza anos paises do terceiro mundo ao longo do século XX e dos países Europeus dos anos 1990 até hoje colocaram a modernidade em cheque. O Estado, visto como fator inclusivo e porto seguro da subjetividade, começou a mostrar-se violento e ambivalente. Zigmunt Bauman chega a colocar a modernidade como um monstro ambivalente, considerando Adolph Hitler como uma espécie de grande atrator moderno: seus ideais de pureza racional e ordem seriam a exacerbação dos ideais da modernidade. A inclusão, a igualdade, o desenvolvimento movidos por uma “Sociedade” que se sobrepõe e se antagoniza aos “indivíduos”. Os loucos precisam ser curados no manicômio, é preciso, os alunos precisam ser disciplinados na escola. A diferença é vista como anomalia. Os turbulentos anos 60, década de efervescência e questionamento das prisões espaço-temporais-tecnológicas, pelo surgimento de pensadores críticos e absolutamente transdisciplinares, como Feliz Guattari, Gilles Deleuze, Michel Foucault. A subjetividade desejante, para estes atores, é um conflito de forças com o que poderíamos chamar de “social”, o sujeito resiste ao poder instituído, ele demanda mais do que boas relações e organização social. Em tempos de crise identitária e técnica, na inversão da lógica “social-individual” na relativização das dicotomias, autores como David Harvey e François Lyotard, entre outros, chegam a discutir a possibilidade de uma pós-modernidade: o fim do estado e da sociedade, e conseqüentemente, da possibilidade de compreendê-los em um sistema teórico compreensível.
Dentro da sociologia, por questões corporativas (sem sociedade não é possível fazer sociologia), há grande resistência ao termo “pós”. Afinal, o Estado moderno realmente não acabou, a existência moderna tampouco deixou nosso horizonte subjetivo, a democracia, especialmente em tempos de eleições, não deixa de clamar pelo Estado responsável por saúde, educação, segurança e emprego. Nos países do terceiro mundo, o Estado Moderno é muito forte, porém de curto alcance, e às vezes apenas sua parte mais violenta é sentida especialmente pelas populações mais pobres, pois são os pobres quem apanham da polícia do estado moderno, quem freqüentam suas precárias instalações escolares e de saúde e habitam as favelas, que são os restolhos das políticas de habitação modernas. Como um cadeado de ferro em uma choupana infestada de cupins, a modernidade espreme os sujeitos, excluídos em um sistema de exclusão.
Tais contradições e efeitos funestos e contraditórios levaram alguns sociólogos a pensar, com Giddens que vivemos “as conseqüências da modernidade”, ou que esta modernidade me tempos de globalização é uma “modernidade tardia” e que o descentramento do papel do Estado e a emergência das redes sociais, ou mesmo da subjetividade não mais como efeito da socialização, e sim a sociedade como efeito da subjetivação sejam características de uma modernidade “líquida”, em oposição à velha modernidade “sólida”.

Bruno Latour, nos anos 1970,  produziu uma obra revolucionária e polêmica chamada "Vida de Laboratório" que deu início a mais elaborada aventura em um dos cânones sagrados da chamada modernidade: a ciência. Latour inaugura uma nova modalidade metodológica que consiste na observação etnográfica metódica dos laboratórios, o que implica em analisar não somente os métodos, a produção científica e a "epistheme", mas também as práticas científicas como redes simétricas entre atores: aparelhos, cientistas, financiamento, publicações, imprensa, economia. Tais redes não são parte de uma sociedade pré dada, e sim estados emergentes e que demandam estabilidades e instabilidades para se manter como "fatos científicos". O total desnudamento das práticas científicas levou Latour a produzir seu famoso ensaio de título bombástico "Jamais fomos modernos" considerando como "modernos" pessoas que deliram e alucinam com a possiblidade de existir uma ciência "fria" "impessoal" "infalível" e "majestática". Latour, ao ingressar  radicalmente no laboratório e mergulhar nos rituais e nas práticas cotidianas, tornou-se um crítico ferrenho da ciência, porém sem negar sua materialidade como fazem alguns desconstrucionistas. A  ciência moderna é apenas humana, demasiado humana.
Nós, os contemporâneos, modernos, pós- modernos, recentes, tardios, líquidos, sólidos vivemos este impasse, e creio que Bauman acerta quando diz que a modernidade é ambivalente: sonhamos com a individualidade mas entramos de cabeça na coletividade midiática ou dos padrões de consumo, sonhamos com um futuro de paz e igualdade, mas somos todos radicalmente diferentes e a todo tempo entramos em conflito.
A minha posição enquanto pesquisador  e professor universitário  também é ambivalente, penso que a subjetividade contemporânea, de quem vive em uma cidade e está acoplado a redes e padrões de trabalho, consumo de cultura, alimentação e saúde, é uma subjetividade constituída por uma rede, e está em rede. Somos a interface entre o coletivo e o individual, entre a clausura e a abertura. Na rede em diferentes níveis de consciência, somos individuais e coletivos, somos atores e platéia, sólidos, líquidos e gasosos. A modernidade parece ser o software que estrutura nossa experiência de urbanitas, e a pós-modernidade, o princípio da conexão e da atualização.Tendo a concordar com Latour: jamais fomos modernos... ou não...
Algumas dicas de leitura para quem não quiser passar vergonha em algum encontro de intelectuais pós-modernos ou modernos tardios.

BAUMANZygmunt. Modernidade e Ambivalência. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1999

BAUMANZygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2001

BAUMAN, Zygmunt. Comunidade. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005

BAUMANZygmunt. Vidas Disperdiçadas. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005

 

 

DELEUZEGilles, GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia vol 01. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995

DELEUZEGilles, GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia vol 03 . Rio de Janeiro: Editora 34, 1998

  FOUCAULTMichel, Vigiar e Punir: a história da violência nas prisõesPetrópolis: Editora Vozes, 2000.
GARLAND, David, La cultura Del control: crímen y orden social en la sociedad contemporánea. Barcelona, Gedisa, 2005.
GIDDENS, Anthony, A terceira via: reflexões sobre o impasse político atual da social-democracia. Rio de Janeiro, Record, 2001
GIDDENS, Anthony. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro, Record, 2000
GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo, Ed. da UNESP, 1991
GIDDENS, Anthony, BECK, Urlich e LASH, Scott, Modernização Reflexiva, São Paulo, Ed. da UNESP, 1997.

HOBSBAWM, Eric.  A Era dos Extremos. Rio de Janeiro, R. J.  Paz e Terra, 1994

lATOUR, Bruno, Jamais fomos modernos: ensaio sobre antropologia simétrica. Rio de Haneiro, Ed 34, 1994